Lollipops for Christmas

Estes lollipops de menta e chocolate branco surgiram porque tinha sobrado chocolate branco. Como eu pretendia fazer algo natalício, inicialmente pensei em utilizar as tradicionais bengalas de menta, mas não consegui encontrá-las no mercado. Para substituí-las pensei nestes rebuçados. Comecei por dispor os rebuçados em círculo e depressa começou a surgir uma flor. Na altura, desconfiei se os rebuçados ficariam solidificados no chocolate. Sempre pensei que quando fosse levantar o lollipop alguns rebuçados se desprendessem, mas isso não aconteceu em nenhum dos lollipops feitos.

Deixo-vos então esta ideia para a mesa do Natal ou para prendinha, especialmente se devidamente acondicionada em saquinho transparente, finalizado com um laçarote.

Lollipops de Menta e Chocolate Branco

Lollipops de menta e chocolate branco

Lollipops de menta e chocolate branco

Ingredientes

• 500g de chocolate branco
• rebuçados de menta
• paus de madeira
• folhas de papel vegetal

1.Forrar tabuleiros com papel vegetal;

2.Colocar numa taça de vidro o chocolate partido em pedaços;

3. Colocar a taça no microondas, na potência máxima, por períodos de 30 segundos, até o chocolate estar completamente derretido e com um aspecto brilhante, mexendo sempre entre cada rotação (nunca fazer de uma só vez pois podemos alterar a consistência do chocolate); quem preferir. Em vez do microondas poderão derretê-lo em banho-maria;

4. Dispor os paus de madeira nos tabuleiros e fazer um círculo com rebuçados de menta;

5. Com uma colher de sopa, preencher o vazio no centro do lollipop com chocolate branco derretido.

6. Levar ao frigorífico cerca de 60 minutos para solidificar.

Lollipops de menta e chocolate branco

lollipop de menta e chocolate branco

Anúncios

Vamos Rebuçar neste Natal? Quem aceita o desafio?

Fazer rebuçados em casa é algo quase inimaginável. De facto, devem ser poucas as pessoas que já experimentaram ou que tendo a receita dominam a técnica, porque esta requer pontos de açúcar e alguma perícia. Desde criança que vejo a minha avó fazer rebuçados caseiros e sempre com recurso aos citrinos para aromatizar. Curiosamente, foi sobre rebuçados o tema do meu primeiro conto, denominado de Rebuçados de Tangerina, um texto talvez demasiado triste e lamechas, mas foi o que, na altura, o ritual dos rebuçados me inspirou a escrever. Deixar a imaginação fluir e conduzir as linhas orientadoras da escrita é sempre uma aventura, tal como é a confeção de qualquer receita de rebuçados.
Escrever é sempre um risco quando não o fazemos só para nós mesmos. Fazer rebuçados na privacidade da nossa cozinha é uma coisa. Reproduzir a receita em público acarreta sempre o fator risco. Resolvi arriscar com cautela e introduzi a confeção dos rebuçados num dos workshops que fiz este mês na loja DeBORLA-Terceira. Posso agora afirmar que a receita foi um sucesso. Das 34 participantes presentes, apenas uma já tinha visto fazer rebuçados caseiros. Na realidade, existem imensas receitas que têm caindo em desuso devido à grande oferta de produtos prontos a consumir nos nossos supermercados. Muitos avós dos dias de hoje já não partilham estas experiências com os netos, umas vezes por falta de tempo, outras de iniciativa ou por simplesmente já não se lembrarem dos procedimentos de alguns costumes transmitidos pelas gerações anteriores. Assim se perde muito património.

Os rebuçados que veem nas fotos são ambos de morango. Os primeiros apenas levaram aroma. Aos últimos, os realizados no workshop do qual falei acima, juntei para além do aroma de morango, corante em gel. Quando estávamos a esticar os rebuçados, já na parte final da receita, resolvemos desenhar algumas bengalas que até ficaram engraçadinhas.

Fica aqui então o desafio para quem se achar capaz de aceitar. É uma excelente ideia para prenda de natal, se os colocarmos dentro de uma caixa ou bomboneira bonita. E por que não personalizarmos a nossa mesa de Natal com esta iguaria feita por nós?

Vamos rebuçar neste Natal?

rebuçados de morango_foodwithameaning

rebuçados de morango_foodwithameaning

 

Bomboneira com Anjo disponível nas lojas DeBORLA.
rebuçados de morango_foodwithameaning

rebuçados de morango_foodwithameaningrebuçados de morango_foodwithameaning

Rebuçados e Bengalas Natalícios

 Ingredientes

  • 500 g de açúcar
  • 1 dedo acima do açúcar de água
  • 4 colheres de sopa de vinagre branco
  • 1 colher de sobremesa de aroma de morango
  • corante em gel
  • manteiga ou óleo para untar o prato
  1. Coloca-se o açúcar num tacho, nivelando-o. Vai-se acrescentando água até um dedo acima do açúcar. Adiciona-se o vinagre  e mexe-se com uma colher de pau.

 

  1. Leva-se a lume médio até estar a ferver de uma forma lenta e a fazer a chamada “bolha morta”, que rebenta lentamente. Não se assustem com o cheiro intenso a vinagre. Não passará para o rebuçado.

 

  1. Enche-se com um dedo de água uma taça pequena. Retira-se um pouco do preparado e coloca-se na taça. Aperta-se com o polegar e o indicador para certificar que o preparado se está a unir, levanta-se ao ar e deixa-se cair novamente na água. Se se ouvir um tinido forte está pronto a apagar o lume. Outra forma é na própria tampa da panela colocar um pouco do preparado e verificar se ao puxar já faz fios de seda.

 

  1. Junta-se o aroma e o corante. Deixa-se ferver e verifica-se novamente a consistência acima descrita. Unta-se um prato raso com manteiga ou óleo (certifiquem-se que o prato irá aguentar o calor).  Depois de estar nos pratos, o rebuçado deve arrefecer até ficar mais consistente. Unta-se uma faca em óleo e vai-se tentando mexer o rebuçado para arrefecer, sempre dos bordos para o centro, tentando aglomerar o preparado no meio do prato.

 

  1. Unta-se as mãos com óleo e tenta-se retirar o rebuçado do prato e esticá-lo com as mãos. Convém fazer este passo com outra pessoa, também com as mãos untadas, para se irem revezando no esticar, pois o rebuçado ainda está quente e queima ligeiramente.

 

  1. O rebuçado deve ser puxado com alguma insistência até ficar com a cor e a espessura desejadas. Poderão ser lisos ou torcidos.

 

  1.  O rebuçado deve ser cortado de imediato antes que arrefeça totalmente. Utiliza-se a tesoura de cozinha.

 

  1. Os rebuçados são embrulhados em papel vegetal ou em papel celofane cortado a gosto.ni

Rebuçados de tangerina…em conto

Quando publiquei a receita destes rebuçados de tangerina, despertou em mim a vontade de escrever este conto. As personagens e os cenários começaram a desenhar-se  e gostei principalmente do facto de ter deixado a narrativa fluir ao sabor da inspiração e das vontades. Faz este mês um ano que o escrevi. Hoje deparei-me com uma pasta onde tinha guardado o texto e resolvi partilhá-lo com quem tiver a paciência de o ler.

diapositivo19 (1)

diapositivo24

Rebuçados de Tangerina

Era conhecida como a Ana dos Rebuçados. Tinha voltado ao campo depois de quatro anos de vida na cidade grande. Lisboa ficara para trás. A vida por lá não lhe correra como o esperado. Voltara então à aldeia. Sozinha. O casamento não dera certo. A cidade mostrara-se demasiado avassaladora nos horários e nas tentações. Não gostara do prédio para onde fora viver com o marido: uma única assoalhada numa cave pouco iluminada humildemente decorada pelo castanho dos móveis velhos e pelo branco-esverdeado do bolor que se desprendia das paredes em jeito de fios de cabelo. Os vizinhos eram barulhentos e as pessoas desbotadas na cor. Sentia o perigo e o medo nos olhares que se cruzavam com o dela nos circuitos dos transportes públicos, crivados de gente cinzenta, muda, e de corpos sem expressão, que se limitavam a respirar através dos filtros dos ares-condicionados. Bastara.

Regressara com a única mala que levara quando partira, vazia de conteúdo mas cheia de sonhos. Vivia na casa que fora sempre dos seus avós e que depois fora herdada pelos seus pais. E fazia os rebuçados de tangerina mais perfumados da vizinhança. Do antigo pomar, amavelmente cuidado por um vizinho, recolhia os frutos necessários, e da sua cozinha, à antiga, saía a sua fonte de sustento: os rebuçados.

Começava a prepará-los de madrugada. A aldeia acordava com o cheiro dos citrinos. O aroma que emanava da raspa da tangerina fazia antever que estes rebuçados seriam os meus eleitos. Comprava-os na mercearia da D. Balbina. Nunca tive coragem de os adquirir diretamente à Ana. Tínhamos sido colegas de carteira na escola primária e por sempre nutrir uma admiração por ela, nunca consegui que o nosso relacionamento fosse o de franca amizade. Guardei-a comigo na esperança de um dia ter coragem para exprimir o que sentia. O José fê-lo primeiro. O José levou-a ao altar. Eu não.

A adição de vinagre no tacho propagava pela cozinha um odor forte. E eu sentia-o ao passar perto da janela. A Ana estava ao fogão de avental posto e mangas arregaçadas, pronta para aceitar mais um dia. Enquanto o açúcar se esforçava por atingir o ponto de rebuçado, o líquido borbulhante emitia calor para a mão direita da cozinheira que, com a ajuda da colher de pau, ocasionalmente mexia os ingredientes. Estava frio. Sentia-o. Talvez o dia mais frio desse ano. Era, sem dúvida, o dia mais acertado para a cozinheira fazer os rebuçados caseiros. Os pés desta, pequeninos nos chinelos demasiado grandes, permaneciam enregelados junto ao fogão, mas as mãos, essas, anteviam momentos quentes. Imperava a premonição  do tacto. De seguida, vinha a bolha morta e a necessidade de colocar umas gotas do preparado numa taça com água e apertá-las com o polegar e o indicador para constatar a união dos ingredientes. E eu via o princípio do tacto, do lado de fora da janela. Acendia um cigarro e fingia que debaixo do beiral me protegia da chuva que começava a desenhar-se no ar tracejado.

Ao cair na água que a taça continha, o tinir do aspirante a rebuçado constituía-se como a palavra mágica. A cozinheira untava agora com óleo a superfície de um prato e fazia escorrer outras tantas gotas generosas por entre os dedos das mãos. O óleo facilitaria o molde e protegeria as mãos do calor escaldante. Ela sabia-o. Tinha-lho ensinado a avó quando já era mocinha. O rebuçado era agora levantado sabiamente do prato, com a ajuda de uma faca, e dançava entre os dedos da Ana, que o esticava, enlaçava e deslaçava e que o atirava ao ar para sentir o fresco momentâneo da sua não presença. De volta às mãos hábeis, o rebuçado era novamente puxado, e mais uma vez torcido, até ganhar a cor e a identidade desejadas. E as mãos sentiam este bailado. E as mãos criavam. Sempre as mãos. Sempre o tacto. Sempre a Ana. E eu ali. E a chuva parara. E eu teria de sair dali.

O toque enferrujado da campainha da porta soou. Era o neto da Balbina que, transportando um cesto de vimes, tinha ido, a mando da avó, buscar os rebuçados que iriam alegrar os paladares das gentes da terra. A Ana não ouvira a campainha e o rapaz, de oito anos, não se fazendo rogado, rodou com alguma malícia, a maçaneta da porta. Estava aberta. Caminhou até à cozinha com passos contados, carregando a culpa de quem infringe. Chamou baixinho pela Ana mas a cozinheira permanecia compenetrada no corte e embrulho dos rebuçados. O moço empurrou suavemente a porta envelhecida da cozinha. O chiar das dobradiças centenárias não fez com que Ana despertasse para o intruso. De costas, e ligeiramente curvada sobre a mesa da cozinha, fazia desfilar pelo papel celofane uma tesoura paciente e recortava languidamente quadrados precisos, sem recurso a réguas matemáticas. Envolvia, de seguida, cada rebuçado no seu invólucro como se de um tesouro bem guardado se tratasse. Hoje imperava o amarelo. Eram os meus rebuçados de tangerina.

Custava três euros o saco, mas, quase sempre, o neto da D. Balbina vendia todos os embrulhos antes de chegar à mercearia da avó, com quem vivia desde pequenino. As pessoas avistavam-no com o cesto e já sabiam que vinha de casa da Ana. Eu comprava-lhos sempre. Era parte do tempo e da dedicação da Ana que estava dentro daqueles saquinhos coloridos. E o rapazola adorava chegar à avó com a missão cumprida. Sabia, o espertalhão, que o saco reservado no bolso do casaco era a meta de tão voluntarioso trabalho. E, depois, seguia caminho, aos saltos, à procura de ideias para pregar partidas a este ou àquele que se lhe atravessasse no caminho, quer fosse pessoa ou animal. Era reguila. Escolhia o caminho mais longo para a escola e utilizava sempre argumentos imaginativos para justificar atrasos e incumprimentos. Apesar disso, todos na aldeia admiravam a tenacidade física e a agilidade de pensamento do rapazito. Ana nutria muito afeto por ele. Admirava o registo infantil e a sua genuína alegria de viver. Qualquer dia havia de perguntar-lhe se gostaria de aprender a fazer rebuçados. Ensinar-lhe ia de bom grado todos os passos da receita. Perpetuar-se-ia assim na memória daquele menino.

Ana era filha única e criança nascida fora de tempo. Agora com trinta e cinco anos restava-lhe a mãe viúva que vivia com a tia, Jacinta, que por opção do destino ficara solteira. A casa onde vivera com o marido reservava-se muito grande só para si. A cada canto vislumbrava uma memória saudosa que a acolhia. Para Ana, a decisão de voltar para a aldeia, e para a antiga casa dos pais representava a única coisa que naquele momento era certa, aquilo que fazia sentido. Os rebuçados significavam o outro rumo: o sustento da sua existência. Não pensava no futuro. Estava bem assim. Tinha a casa, a horta das traseiras, o curral, o galinheiro e o pomar. Tinha o silêncio da aldeia e o ar fresco da madrugada que a incentivava a diariamente acender o lume, a esperar pelo ponto de rebuçado e a conferir aromas e formas ao açúcar elástico. Preenchia todos os dias, até à hora de almoço com esta labuta metódica e artística. E pensava que tinha todos os ingredientes para ser feliz.

A aldeia amanhecera com a notícia que o neto da D. Balbina tinha subitamente adoecido. Desconfiava-se de febre da carraça. As vizinhas da velha merceeira afirmavam que a doença do rapazinho era vingança da própria natureza. De tanto fazer mal aos animais teria contraído uma carraça de algum cão de rua ao qual teria esganado o pescoço para ouvir o ganir de desespero do canino.

 A Ana estranhara a demora do miúdo e resolvera levar naquele dia, ela própria, os rebuçados. Quando entrou na mercearia reparou que havia muita agitação. Todos os locais presentes comentavam os possíveis diagnósticos da condição do neto da D. Balbina. A Ana fez sinal à merceeira que, por uma porta de ligação entre a casa e a mercearia, regressava ao trabalho, depois de verificar o contínuo estado febril do neto. Ambas conversavam, agora com ar de pesar, e eu observava-a de um dos cantos mais escuros da loja. Coincidíramos ali.

Via-a agora de perfil. Sempre esbelta, fresca e simples nos trajes. Trazia ainda o avental azul vestido. Com a pressa esquecera-se de o retirar e pendurar atrás da porta da cozinha, como fazia todos os dias depois de embrulhar e colocar em saquinhos os rebuçados reluzentes.

Não havia médico na aldeia e a população juntara-se para entre todos angariarem o dinheiro necessário para mandar vir o médico e pagar as despesas da consulta e dos medicamentos. Ana quis, desde logo, liderar a iniciativa. Organizaria naquela noite um jantar comunitário no salão de festas da igreja. Os homens preparariam o espaço com cadeiras e mesas que se amontoavam enfarinhadas por teias na despesa do salão. As mulheres cozinhariam a ceia e confeccionariam os doces para serem arrematados depois do jantar.

O relógio da igreja marcava as seis da tarde e da cozinha improvisada no salão da igreja viajavam aromas distintos emanados pela combinação de temperos e conduzidos pelas correntes de ar. De início, era o cheiro a louro e a cebola refogada. Depois, destacava-se o fumado dos enchidos, e, por fim, o aroma proveniente das carnes.

Diretamente dos dois potes de ferro saía, agora, para os pratos das cinquenta pessoas que habitavam a aldeia, a tradicional feijoada. Apenas o neto da D. Balbina e dois idosos, todos adoentados, não se puderam juntar à festa. Ana correu a servir-lhes diligentemente o jantar. Dentro do salão, todos elogiavam a comida, que seguia em tabuleiros acompanhada de fatias grossas de pão de trigo, ainda morno, cozido no forno de lenha da D. Balbina. Ia começar a arrematação das sobremesas e todas as pessoas, de acordo com as suas parcas posses, faziam subir o preço deste ou daquele bolo feito para a ocasião com os melhores ovos caseiros de cada galinheiro. O arrematador era o meu pai. Tirava agora da prateleira de doces uma cesta forrada com um pano de linho com rebordo a renda. Estava repleta de rebuçados de tangerina. Teriam de ser meus. Pensei.

Ana reparava na forma efusiva com que eu fazia crescer o valor da cesta de rebuçados. Ela sabia, agora publicamente, a minha predilecção pelos rebuçados dela e olhava para mim. Via-me. Sem que desse conta, a tia da Ana cobrira o valor que eu antes tinha proposto e sem que houvesse mais nada a fazer o meu pai, entregou-lhe a cesta. Todos repararam no meu olhar de desânimo até que a Ana se aproximou de mim e, pela primeira vez desde que tinha voltado da cidade, falou comigo.

– Olá António! Amanhã faço novos rebuçados. Passa por lá perto da hora de almoço. Por essa altura já os terei preparado em saquinhos – afirmou com voz suave e assertiva- e dirigiu-se para um grupo de mulheres que começavam a recolher a loiça do jantar.

Nem me lembro se agradeceu. Disseram que o viram a acenar a cabeça. Eu estava petrificado e entorpecido.

Não dormi a noite toda. Ainda não eram dez horas quando vi chegar o carro do médico. Dirigia-se com passo apressado para casa da merceeira. O calor começava a fazer-se sentir e os aldeões regressavam das hortas e dos campos de gado. Tinham saído cedo, pela fresca, e eu com o espírito sempre ocupado com um único pensamento, sabia que tinha também de ir tratar do gado e de regar a horta. Faria isso tudo mais tarde.

Lavei-me, vesti-me e saí à rua. Cruzei-me com o médico que já regressava de casa da D. Balbina. Interpelei-o sobre o estado de saúde do neto da merceeira. Tinha uma pneumonia, mas escaparia, de acordo com as palavras do médico. Descansei. A natureza tinha-se condoído do miúdo, talvez por apenas existirem três crianças na aldeia ou por já se ter habituado às traquinices do moço e não se conseguir imaginar sem a presença do rapazinho.

O relógio do campanário registava onze horas e a minha ansiedade impedia-me de esperar pela hora de almoço. Tinha o convite para ir a casa da Ana e sabia que mais importante do que os rebuçados era a oportunidade que teria de conversar com ela. Quando me preparava para bater à porta, ouvi uma voz que vinha lá de dentro. Era a voz grave de José.

Naquele momento, percebi que meus eram apenas os rebuçados de tangerina. E regressei a casa.

Rebuçados de tangerina… e o Tacto

rebuçados de tangerina_foodwithameaning

O aroma que emanava da raspa da tangerina fazia antever que o Olfacto seria o eleito. A adição de vinagre no tacho propagava pela cozinha um odor forte. Novamente o Olfacto prevalecia. Tão erradamente. Enquanto o açúcar se esforçava por atingir o ponto de rebuçado, o líquido borbulhante emitia calor para a mão direita da cozinheira que, com a ajuda da colher de pau, ocasionalmente mexia os ingredientes. Estava frio lá fora. Talvez o dia mais frio deste ano. Oito graus centígrados. Uma realidade quase improvável neste clima atlântico temperado. Era, sem dúvida, o dia mais acertado para a cozinheira fazer os rebuçados caseiros. Os pés desta permaneciam enregelados junto ao fogão, mas as mãos, essas, anteviam momentos quentes. Imperava a premonição  do Tacto. De seguida, veio a bolha morta e a necessidade de  colocar umas gotas do preparado numa taça com água e apertá-las com o polegar e o indicador para constatar a união dos ingredientes. O princípio do Tacto. Ao cair na água, o tinir do aspirante a rebuçado  foi a palavra mágica. A cozinheira untava agora com óleo a superfície de um prato e fazia escorrer outras tantas gotas generosas por entre os dedos das mãos. O óleo facilitaria o molde e protegeria as mãos do calor escaldante. O rebuçado era agora levantado sabiamente do prato. E dançava entre as duas mãos que o esticavam, que o enlaçavam e deslaçavam, que o atiravam ao ar para sentirem o fresco momentâneo da sua não-presença. De volta às mãos hábeis, o rebuçado era novamente puxado e mais uma vez torcido até ganhar a cor e a identidade desejadas. E as mãos sentiam. E as mãos criavam. Sempre as mãos. Sempre o Tacto.

rebuçados de tangerina_foodwithameaning

rebuçados de tangerina_foodwithameaning

Com este texto e receita participo no Passatempo 5 Sentidos com a Alecrim aos Molhos do blogue Limited Edition.

rebuçados de tangerina_foodwithameaning

Ingredientes 

250 g de açúcar

1 dedo acima do açúcar de água

2 colheres de sopa de vinagre branco

raspa ou casca de 1 tangerina pequena

manteiga ou óleo para untar o prato

Modo de Preparação

1. Coloca-se o açúcar num tacho, nivelando-o. Vai-se acrescentando água até um dedo acima do açúcar. Adiciona-se o vinagre e a casca da tangerina e mexe-se com uma colher de pau.

2. Leva-se a lume médio até estar a ferver de uma forma lenta e a fazer a chamada “bolha morta”, que rebenta lentamente. Não se assustem com o cheiro intenso a vinagre. Não passará para o rebuçado.

3. Enche-se com um dedo de água uma taça pequena. Retira-se um pouco do preparado e coloca-se na taça. Aperta-se com o polegar e o indicador para certificar que o preparado se está a unir, levanta-se ao ar e deixa-se cair novamente na água. Se se ouvir um tinido forte está pronto a apagar o lume. Outra forma é na própria tampa da panela colocar um pouco do preparado e verificar se ao puxar já faz fios de seda.

4. Unta-se um prato raso com manteiga ou óleo (certifiquem-se que o prato irá aguentar o calor). Retira-se as cascas de tangerina. Se preferirem utilizar a raspa, como eu fiz, só agora se adiciona ao rebuçado. Depois de estar nos pratos, o rebuçado deve arrefecer até ficar mais consistente. Unta-se uma faca em óleo e vai-se tentando mexer o rebuçado para arrefecer, sempre dos bordos para o centro, tentando aglomerar o preparado no meio do prato.

5. Unta-se as mãos com óleo e tenta-se retirar o rebuçado do prato e esticá-lo com as mãos. Convém fazer este passo com outra pessoa, também com as mãos untadas, para se irem revezando no esticar, pois o rebuçado ainda está quente e queima ligeiramente.

6. O rebuçado deve ser puxado com alguma insistência até ficar com a cor e a espessura desejadas. Poderão ser lisos ou torcidos.

7.  O rebuçado deve ser cortado de imediato antes que arrefeça totalmente. Utiliza-se a tesoura de cozinha.

8. Os rebuçados são embrulhados em papel vegetal ou em papel celofane cortado a gosto.

Quem serão os corajosos a reproduzir a receita?
Lembrem-se que se o rebuçado não acertar à primeira ou à segunda vez podem sempre tentar à terceira pois os ingredientes são pouco dispendiosos.
Adoro receitas que dão luta! Garanto-vos que esta é uma delas!
Conselho: Escolham um dia frio!
E Boa Sorte!
Patrícia