Mais viagens na minha terra

São nove da manhã. Quase impensável estar a esta hora, e num sábado, às compras no mercado municipal. Acresce o facto de ter conseguido ter as crianças acordadas e preparadas para sair num dia devotado ao descanso. Levantar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer. Foi sempre este o meu lema, mesmo nos tempos académicos. Dormir, apesar de necessário, é a perda do tempo que podemos direcionar para atividades dinâmicas e enriquecedoras.

Estaciono o carro numa rua lateral da catedral dos Açores, no centro da cidade de Angra, ainda quase totalmente adormecida. O café Atanásio e os Armazéns Zeferino já têm as portas abertas, mas as boutiques e as sapatarias ainda acumulam silêncio interior. Alguns funcionários dos serviços municipalizados varrem as evidências deixadas pelos atos noturnos da rapaziada, concretizados em beatas e garrafas de cerveja. Um ou outro folheto voa anunciando espetáculos de circo com palhaços divertidos e animais tristes.

Atravessamos a rua da Sé e seguimos rumo à rua do Teatro Angrense. Subimos uma escadaria solitária junto às saídas de emergência do edifício do teatro e deparamo-nos com uma das portas viradas a sul do mercado duque de Bragança. Chegamos à praça, como a este mercado se referem os antigos.

As crianças já vêm despertas com o ar fresco da manhã e prontras para descobertas e compras.

Mercado Duque de Bragança

Correm de imediato para um pequeno chafariz. Pretendem ver os peixes e as rãs que se escondem debaixo das folhas de nenúfar.

Mercado Duque de Bragança
Mercado Duque de Bragança

Sentem curiosidade sobre objetos de outros tempos, expostos em mesas e no chão do exterior de uma das lojas do mercado. Móveis, máquinas de costura, balanças, loiça de barro, de cerâmica e de vidro, objetos em ferro e em madeira, frascos de curtume e de massa de malagueta e fotos antigas contribuem para um imediato regresso ao passado. Entro na loja, avisando a descendência para que apenas visse com os olhos, e deparo-me com um trio de caldeirões de ferro que jaziam no chão de mosaico. Lá ao fundo, encostada a uma parede encontra-se uma lindíssima cama de ferro pintada a branco. Nas prateleiras dos móveis acumulam-se coleções de copos e de chávenas que assistiram ao passar de várias gerações e que dividem o espaço com bibelôs de pássaros e de meninos de ar angélico e plácido.

Mercado Duque de Bragança

Mercado Duque de Bragança

Mercado Duque de Bragança

Mercado Duque de Bragança
Num recanto perdido do mercado, e junto a uma escadaria que dá acesso ao piso superior, a natureza desponta num alguidar de alcatra, protegida das intempérides pelo espaço que antes fora de um contador da água. Um momento alto.

Mercado Duque de Bragança

Mercado Duque de Bragança

As portas da peixaria já se encontram abertas. Entro e, entre os pregões dos homens do mar, encontro o peixe que procurava: um belo exemplar de salmonete do alto, perfeito para a salada de peixe que pretendo fazer.Tive sorte. Nem sempre surge na lota. Dizem os pescadores que aparece pouco nas redes e com mais frequência quando vão à pesca do congro. É um peixe de fundo, portanto.
Os miúdos ouvem com ar atento as explicações do pescador à medida que este amanha o peixe e, junto à banca, queixam-se baixinho do cheiro a peixe e do chão alagado que molha ao de leve as bainhas das calças dos mais distraídos.

Saímos da peixaria.

Começamos a percorrer o corredor central do mercado. Somos de imediato recebidos por um expositor de próteas. Lindas e  de produção local.

Mercado Duque de Bragança
Dirigo-me aos vendedores que conheço desde sempre. Confio neles. Compro-lhes laranjas da ilha do Pico, inhames e leguminosas secas. Nas mãos pesam-me já os sacos, mas não saímos sem antes entrarmos no talho: o melhor da ilha em termos de qualidade, apresentação dos produtos e simpatia.
Mercado Duque de BragançaMercado Duque de BragançaMercado Duque de Bragança
Ao deixarmos as portas do mercado para trás, reparamos que a cidade já se havia transformado. As pessoas dirigiam-se com azáfama de loja em loja e os automóveis, agora mais que muitos, imprimiam outra sonoridade ao ambiente antes quieto.

Avistamos o nosso carro. Estava na hora de regressar a casa.

&

Já em casa, arrumo o conteúdo dos sacos e ponho a cozer  uma porção de feijão catarino que tinha deixado a demolhar de véspera.

Este e os inhames  fazem parte desta sopa.

Creme de inhame e feijão catarinoCreme de inhame e feijão catarino

Ingredientes

2 inhames médios cozidos

250 g de feijão catarino cozido (ou outro da vossa escolha)

1 courgette média

3 cenouras

1 pedaço de abóbora

1 cebola

sal

azeite

água (utilizo a água da cozedura do feijão)

1 ramo de cheiros com tomilho-limão

1 pedaço de linguiça

Preparação

1. Opto por já comprar os inhames cozidos. Se assim não fosse teria que cozê-los na panela de pressão. O tempo de cozedura varia consoante a quantidade e o tamanho dos inhames.

2. Cozo o feijão num panela com bastante água sem sal . Utilizo a  água da cozedura para a sopa. Quem preferir comprar o feijão enlatado, poderá utilizar o líquido da lata.

3. Escorro o feijão, depois de cozido, e reservo-o.

4. Corto a cebola em meias-luas, coloco-a numa panela e refogo-a ligeiramente em azeite.

5. Adiciono a esta panela a abóbora, a courgette, a cenoura  e o raminho de cheiros com o tomilho-limão. Cubro os legumes com água da cozedura do feijão. Quando esta não é suficiente, acrescento mais. Insiro na panela o pedaço de linguiça. Tempero com sal.

6. Quase no final da cozedura adiciono o feijão reservado e o inhame aos pedaços. Retiro o pedaço de linguiça e o ramo de cheiros e trituro a sopa com a varinha mágica tranformando-a num creme aveludado.

 

Se em vez da sopa preferirem esta sugestão,
Rissol gigante_ foodwithameaning_receitas ao desafio

encontram-na aqui, no Receitas ao Desafio.

Um ótimo fim de semana.

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