Alcatra mista…em domingo de primeiro bodo

Hoje é o dia do primeiro bodo, ou seja, o domingo principal das Festas do Divino Espírito Santo celebradas aqui nos Açores  pela maioria dos habitantes com um misto de devoção e de oportunidade de saborear os pratos típicos desta época. Cumprindo parcialmente a tradição, resolvi apresentar-vos a receita tradicional do prato mais típico da minha ilha, a alcatra. Digo parcialmente, porque, pela primeira vez, resolvi fazer uma alcatra à qual adicionei alguns pedaços de entrecosto e pá de porco, ingredientes que não constam da receita genuína, a qual descrevo abaixo. E como não há alcatra que se preze que não seja cozinhada em alguidar de barro, fui buscar o maior que tinha, comprado na Olaria de S.Bento, e comecei a preparar a receita.

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Ingredientes

  • 2 kg de rabadilha
  • 1 kg de chambão com osso
  • 8 cebolas médias
  • 300 g de toucinho fumado
  • 10 grãos de pimenta do reino
  • 8 grãos de pimenta da Jamaica
  • 1 a 2 folhas de louro
  • 1 pau de canela
  • vinho de cheiro ou tinto maduro ou vinho branco seco (prefiro este último)
  • 1 colher de sopa de vinagre
  • 1 chávena de água
  • 30 g de manteiga
  • 20 g de banha
  • 2 colheres de sopa de massa de malagueta
  • sal grosso

 

Modo de Confeção da Alcatra

1. Unte o alguidar com manteiga ou banha.

2. No fundo, coloca-se uma camada de cebolas às rodelas, toucinho às lascas, carne aos bocados.

3. Tempera-se com os grãos, o louro, canela e o sal.

4. Repete-se o mesmo procedimento, fazendo camadas até se esgotarem os ingredientes. A última camada deve ser de cebolas.

5. Cobre-se tudo com vinho, com uma chávena de água e vinagre.

6. Termina-se com cebola e nozes de manteiga.

7. Se não tiver forno de lenha, leve a alcatra a cozer em forno médio, durante 3 a 4 horas.

8. Se for necessário acrescenta-se um pouco de mistura de vinho e água.

9. Deve virar-se a carne a meio da cozedura e servir no próprio alguidar.

10. A Alcatra é acompanhada com fatias de massa sovada.

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Quinoa e Alcatra combinam

A alcatra caracteriza-se por ser um dos cortes da carne de vaca. Cá nos Açores, quando se ouve o termo alcatra este é imediatamente associado à Ilha Terceira, por ser o seu prato típico, como poderão perceber através deste link. Ao contrário do que possam estar a pensar, a alcatra tradicional não é composta por carne do corte de alcatra. É, sim,  constituída pelos seguintes pedaços de carne de vaca: rabadilha, chambão e cachaço. É ainda confecionada em alguidar de barro e em forno de lenha.

Esta sugestão de hoje, que começou por ser uma combinação improvável, acabou sendo uma deliciosa surpresa. Daqui em diante, está oficialmente estabelecida cá em casa a quinoa como acompanhamento obrigatório de Alcatra . A tradição da massa sovada irá ser igualmente mantida, mas elegerei a semente quinoa cozida como complemento a este prato. A quinoa absorve o sabor do molho da alcatra, fundindo-se na perfeição e trazendo ainda mais conforto a esta iguaria açoriana. Pessoalmente, acho que esta combinação traz mais benefícios em termos nutricionais e de digestão, comparativamente ao acompanhamento com massa sovada.

O prato e as mini assadeiras das fotos têm a assinatura DeBORLA!

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Ingredientes para fazer a Tradicional Alcatra à Moda da Ilha Terceira

  • 2 kg de rabadilha
  • 1 kg de chambão com osso
  • 8 cebolas médias
  • 300 g de toucinho fumado
  • 10 grãos de pimenta do reino
  • 8 grãos de pimenta da Jamaica
  • 1 a 2 folhas de louro
  • 1 pau de canela
  • vinho de cheiro ou tinto maduro ou vinho branco seco
  • 1 colher de sopa de vinagre
  • 1 chávena de água
  • 30 g de manteiga
  • 20 g de banha
  • 2 colheres de sopa de massa de malagueta
  • sal grosso

 

Preparação 

1. Unte o alguidar com manteiga ou banha.

2. No fundo, coloca-se uma camada de cebolas às rodelas, toucinho às lascas, carne aos bocados.

3. Tempera-se com os grãos, o louro, canela e o sal.

4. Repete-se o mesmo procedimento, fazendo camadas até se esgotarem os ingredientes. A última camada deve ser de cebolas.

5. Cobre-se tudo com vinho, com uma chávena de água e vinagre.

6. Termina-se com cebola e nozes de manteiga.

7. Se não tiver forno de lenha, leve a alcatra a cozer em forno médio, durante 3 a 4 horas.

8. Se for necessário acrescenta-se um pouco de mistura de vinho e água.

9. Deve virar-se a carne a meio da cozedura e servir no próprio alguidar.

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Poderão encontrar as mini assadeiras de cerâmica cinza claro da linha Vianagrés e loiça da mesma linha na loja DeBORLA mais perto de si.

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Acompanhamento de Quinoa

( para 4 pessoas)

  • 1 chávena de sementes de quinoa
  • 2 chávenas de água a ferver
  • sal q.b.

 

Preparação

Colocar a água num tacho, deixar e ferver, temperar de sal e adicionar a quinoa. Cozer durante 12 minutos ou esperar que a água evapore, tal como acontece com o arroz.

Nota: Em breve publicarei a receita dos scones que constam das fotos!

Leivas em todos os Natais

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É curioso como o termo leivas, tão bem conhecido do açoriano, recebe mais aconchego na variante brasileira do português. De facto, a definição de leiva aproxima-se mais de  “terra gramada que se transplanta para formação de relvados” do que  simplesmente a terra lavrada como dita o dicionário priberam. E é do processo de busca das leivas para a construção de um presépio natural que versa este post, como se se tratasse de uma demanda pela preservação da tradição familiar de se ir “ao mato” buscar leivas.

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Na nossa infância e adolescência, íamos sempre os três com o nosso pai buscar as leivas por altura do 8 de dezembro, quando se semeava também o trigo nas pequenas taças que embelezariam o presépio. O porta-bagagem do carro levava um alguidar de plástico, chamado por nós açorianos de “pana”, um sacho e uma colher de pedreiro e rumávamos até às Veredas, uma estrada com matas de criptomérias nas laterais que acordaram num chão coberto por mantas de leivas. E estávamos quase no coração do mato. Trepávamos o baixo muro que nos separava da mata e aterrávamos naquele chão-nuvem, de tão fofo que era. O meu pai disferia uma golpe de sacho e, com a pá de pedreiro, desprendia com cuidado a manta de erva que viria a ser cenário do nosso presépio.  Esta cobriria a gruta do nascimento do menino e ladearia a passagem dos reis magos.

E lembro-me de este ser um passeio mágico. Gosto de recordar estas memórias.

Este ano, e pela primeira vez, fui com o meu marido e com os filhotes às leivas. Eles não sabiam para o que iam. Começaram por  estranhar o aparato das ferramentas na bagageira e o facto de eu lhes ter pedido que vestissem roupas mais velhas e quentinhas. Iríamos para o mato. Para eles essa viagem acarretava mistério e despoletava muitas perguntas as quais tentei responder sempre com o propósito de não revelar muito.

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Chegámos. Estava frio. Começámos por transportar a parafernália mata a dentro. Decidi que pela primeira vez esta aventura tinha de ser fotografada. Confesso que me senti muitas vezes dividida: queria participar no levante das leivas, mas desejava fotografar todos os passos daqueles momentos. A natureza distraía-me constantemente do propósito que me levou até ali. Ao mesmo tempo que recolhia amostras suas, eu era absorvida por todos os seus pormenores, como se de uma troca se tratasse. Ela dava-se mas exigia que eu a analisasse. Coisa estranha. Sabia também que eu a eternizaria no presépio.

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A Natureza estava feliz por nos ter ali com ela e, de súbito, vimos essa felicidade espelhada num tronco. E fica a dúvida se estaria ali presente uma mão humana brincalhona.

Os miúdos adoraram este smile halloweenesco da natureza.

Chegámos um pouco enregelados a casa, mas depressa começamos a desenhar o nosso presépio com as leivas. Preparámos a base, arquitetámos o que seria a gruta do nascimento do menino e os caminhos, que viriam a ser preenchidos com farelo, e estabelecemos recantos com vegetação pequenina.

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O menino voltou a nascer este ano aconchegado pelas leivas.

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O Anjo assistiu a tudo lá do alto.

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Votos de Festas Felizes!

O melhor lugar do mundo

O melhor lugar do mundo é a nossa casa, vi ainda há pouco num outdoor enquanto conduzia em direção a uma zona balnear. Concordei. É a nossa casa. Acrescentei: se ela se situar no sítio certo. E quando o sítio certo é uma ilha, ou ilhota, no meio do atlântico, esta aceção torna-se para muitos algo incompreensível. E sê-lo há. E respeito tais opiniões, pois aceito alguns dos fundamentos. Desde logo, vem à tona a insularidade e os preços mais elevados em quase tudo. Estes são factos relevantes, pois bastam algumas visitas ao continente português ou a sites online para chegarmos a essa conclusão. Ficarmos longe da confusão e do consumismo e estarmos com um pé no mar e outro no campo são para mim a razão pela qual escolhemos este lugar como o melhor do mundo. As empresas de turismo não se cansam de enaltecer os Açores como destino de eleição, apesar de para muitos estrangeiros e até para os cidadãos do continente português ficar mais em conta visitas a países mais longínquos do que à nossa região. São os voos low-cost e as estadias em resorts e hotéis de gabarito apregoados pelas agências que fazem divergir muitos turistas das nossas ilhas. Mas nós estamos aqui sempre com um sorriso hospitaleiro para quem nos visita. Nós criamos memórias felizes. Estejam certos disto.
Hoje não há receita mas uma mostra de produtos regionais em forma de arte, uma iniciativa singular há semanas exposta no Hotel Terceira Mar, aqui na cidade de Angra do Heroísmo.

Apreciem o que o artista decidiu distinguir de cada ilha recorrendo a molduras de madeira e decorando o interior com produtos de produção regional.

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Bolo de curgette em dia de piquenique

Com a primavera começa o desejo por piqueniques. Com o verão esta ânsia acaba por se concretizar. Sem grande planeamento, e com o contributo de todos os convivas, a mesa do parque foi sendo preenchida com o que cada um trouxe na cesta. Foi um dia sem muito sol mas bastante agradável à sombra das árvores. Escolhemos novamente este ano os Viveiros da Falca, um lugar cuidado por mãos sábias onde a natureza é respeitada em todos os seus cursos.

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Viveiros da Falca

E como não pode haver piquenique sem bolo, eu fiz um bolo muito simples de chocolate e courgette sem cobertura, daqueles que não exigem prato. Corta-se uma fatia e saboreia-se até à última migalha sem que as mãos fiquem sujas de cremes.

Bolo de Chocolate e Courgette

Ingredientes

4 ovos médios

meio pacote de cacau em pó

300 g de courgette raspada às tirinhas

300 g de açúcar

400 g de farinha com fermento

1 colher de chá de fermento

1 colher de café de bicarbonato

1 colher de chá de aroma de baunilha

1 pitada de sal

Bolo de cholocate e courgette

Preparação

1. Batem-se as gemas com o açúcar muito bem.

2. Junta-se a courgette e bate-se até se obter um preparado aveludado.

3. Adiciona-se o cacau e o aroma de baunilha.

4. Peneira-se a farinha, o fermento e o bicarbonato para a tigela com o preparado anterior.

5. Batem-se as claras em castelo  com uma pitada de sal.

6. Unta-se e enfarinha-se uma forma e leva-se a cozer em forno pré-aquecido durante 30 minutos ou até o palito vir seco.

Bolo de cholocate e courgetteBolo de cholocate e courgette

Levem um bolo para o piquenique e sejam felizes ao ar livre!

Patrícia

Cornucópias com ovos moles … um doce tradicional

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As cornucópias são uma especialidade da cidade onde vivo, Angra do Heroísmo, na ilha Terceira. São feitas de farinha, manteiga, banha, açúcar, pão torrado, amêndoas raladas e recheadas com ovos-moles.

Relativamente à origem deste doce regional dos Açores, sabe-se que as cornucópias foram criadas pelas mãos sábias e experientes de freiras, sendo uma das inúmeras relíquias da doçaria conventual portuguesa.

Há também quem as faça utilizando massa folhada e recheio de chantilly, mas estas não são as típicas cá da cidade.

Tanto para umas como para outras é necessário a utilização de formas metálicas em cone.

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Ingredientes para a massa (28 a 30 cornucópias)

500g de farinha
50g de manteiga à temperatura ambiente
100g de banha
50g de açúcar
100 ml de água quente
pão ralado
amêndoa triturada
2 claras de ovo para pincelar
formas para cornucópias

Preparação da massa na Bimby

1. Colocar no copo da máquina a farinha, a manteiga, a banha e o açúcar.

2. Selecionar modo Espiga.

3. Através do bucal do copo, ir adicionando a água aos poucos até que a massa se forme numa bola e se despegue do copo.

4. Colocar a massa numa taça, cobrindo-a com película aderente. Deixe repousar no mínimo meia hora.

5. Aquecer o forno a 180º.

6. Untar o exterior das formas muito bem untado com manteiga.

7. Numa superfície enfarinhada, estender  a massa fina e cortar em triângulo de forma a que dê para preencher todo o exterior da forma.

8. Verificar se toda a massa fica bem vedada sem aberturas.

9. Pincelar a massa com clara de ovo,  batida previamente com um garfo.

10. Passar em seguida a massa pela mistura de pão ralado e amêndoa (partes iguais).

11. Levar ao forno em tabuleiro forrado com papel vegetal cerca de 25 minutos ou até começarem a ficar douradas.

12. Deixar arrefecer antes de desenformar.

13. Rechear com os ovos moles.

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Preparação tradicional da massa

1. Colocar num alguidar a farinha, a manteiga, a banha e o açúcar.

2. Amassar tudo com as mãos, indo juntando aos poucos a água quente até que a massa forme uma bola e se despegue do alguidar.

3. Seguir os passos 5 a 13 acima descritos.

 

Ingredientes para o recheio de 28 a 30 cornucópias

Fiz por duas vezes.

250g de açúcar
8 gemas
8 colheres de sopa de água

Preparação na Bimby

1. Colocar no copo o açúcar e a água e marcar 20 minutos Varoma.

2 Retirar o copo e deixar arrefecer, pelo menos 20 minutos. Irá ver a calda de açúcar já engrossada.

3. Passar a gemas por um coador para uma tigela.

4. Voltar a colocar o copo na máquina, encaixar a Borboleta e marcar 8 minutos | 100º | veloc. 2  e ir deitando através do bucal as gemas em fio.

5. Se achar que os ovos moles ainda não estão com a consistência desejada, coloque mais cinco minutos, 100º C, Velocidade 1 e 1/2.

Nota: Para saber se os ovos moles estão no ponto, coloque um pouco do preparado numa colher e espere que arrefeça. Levante a colher e deixe escorrer. Assim já vê o ponto que deseja.

 

Preparação tradicional

1. Colocar no copo a água e o açúcar e levar ao lume até que atinja o ponto pérola. Deixar que arrefeça um pouco (até atingir os 60ºC)

2. Passar a gemas por um coador para uma tigela.

3.  Voltar a ligar o lume (médio) e ir deitando as gemas em fio, mexendo continuamente até que os ovos engrossem.

Nota: Para saber se os ovos moles estão no ponto, coloque um pouco do preparado numa colher e espere que arrefeça. Levante a colher e deixe escorrer. Assim já vê o ponto que deseja.

 

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E com esta receita de cornucópias recheadas com ovos moles participo nesta edição de abril de Dia Um… Na Cozinha.

Foi um gosto poder partilhar convosco este doce tradicional da ilha Terceira.

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Aventuras na praia e um incidente final

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Há dias, eu falava da minha vontade de chamar o verão. A primeira tentativa materializou-se numa sardinhada que apanhou chuva. A segunda e a terceira tiveram ambas lugar na praia. Acho que é o silêncio, o vazio e a imensidão deste local que me atrai no inverno. De verão prefiro as zonas balneares de rocha.

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Gosto especialmente dos passeios nas praias sem gente ou com pouca gente, como foi o caso de há três dias atrás. As personagens desta odisseia foram: eu, a herdeira mais nova e o Max, o fiel Labrador preto. Na tarde de terça-feira de Carnaval, enquanto metade da população descansava das noitadas de folia e a outra metade se preparava para queimar os últimos cartuchos do Entrudo, estacionei o carro junto à praia da cidade onde vivo, coloquei a trela no Max, ajudei a pequenita a retirar os apetrechos de praia e descemos a longa escadaria até ao areal. Eram três da tarde. O sol ainda ia alto mas nada abrasador. Sentia-se uma brisa quente e um cheiro a maresia inigualável. Na praia estavamos nós, um casalinho de namorados, que deitados partilhavam uma toalha, e dois mergulhadores, que acabavam de chegar à areia com alguns polvos pequenos presos à cintura. Desta vez não trouxe um livro comigo. Era necessário ter atenção a dobrar. E assim dei ordens a um olho que vigiasse a criancinha e ao outro que controlasse as matreirices do canídeo. O Max sentiu uma atração imediata pelos pombos que se passeavam na praia. E era vê-lo correr feliz atrás deles, sempre com esperança de caçar algum mais distraído. Com o passar do tempo, deixou-se adotar pelo casal de namorados e quando me apercebi corria alegremente atrás deles pela praia, como se a família dele fosse agora aquela.

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Diapositivo7A filhota tentava, junto ao areal molhado, fazer um castelo que, condicionada pela magia própria da idade, rapidamente transformou num bolo de aniversário com uma cereja grande no topo, feita com uma bola de areia, claro.

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A tarde estava perfeita, até eu avistar no cimo da muralha o funcionário dos parquímetros que, ao desbarato, disparava notificações de estacionamento em todas as direções onde houvesse carros sem ticket. Pelos vistos, terça-feira de Entrudo já não é dia de festa. Não houve assim tolerância em dia de “tolerância de ponto”. Assobiei, o Max veio a correr na minha direção, subimos os degraus do paredão até à estrada de calçada. Lá estava ela, a notificação, presa ao pára-brisas e estática porque não havia vento. Por coincidência, do outro lado do caminho encontrava-se a sede da empresa onde se podia proceder ao pagamento da referida multa. Estacionei em frente ao edifício e a minha filha de cinco anos, sem saber o que se passava pergunta-me: Mãe, o que vais fazer à Loja do Mobilidade? O que vais comprar? É o que dá ter uma filhota que no seu último ano de Pré-Escolar já lê tudo o que lhe aparece pela frente – pensei eu. Respondi-lhe: Ficas aqui no carro com o Max que a mãe vai, num instante, aqui a esta loja. Quando regressei ao carro, perguntou-me apreensiva: Só trazes papéis! Só vendem papel nessa loja? Pois é! – respondi-lhe, enquanto guardava o recibo do pagamento e a cópia do documento de reclamação que registei no livro amarelo. Saiu-me caro  o passeio, pensei eu, mas valeu a pena por tudo o resto que antecedeu este incidente.