Ilha de S. Jorge…Take 1

Conheço a ilha de São Jorge desde pequena, mas de todas as viagens que fiz ficou sempre por descobrir  um cantinho muito especial deste paraíso açoriano: a Fajã da Caldeira de Santo Cristo.

Desta vez a rota foi traçada e a aventura concretizou-se.

Caldeira da Fajã de Santo Cristo_ilha de São Jorge

Esta fajã, possivelmente uma das mais bonitas e sem dúvida a mais famosa fajã da ilha de São Jorge, localiza-se na costa norte da ilha e foi classificada em 1984 como Reserva Natural, pelo Governo Regional dos Açores, devido à existência de amêijoas na sua lagoa denominada Lagoa da Fajã de Santo Cristo.

Mais tarde foi classificada como sítio de importância internacional ao abrigo da Convenção de Ramsar (a Convenção sobre as Zonas Húmidas de Importância Internacional ou Convention on Wetlands of International Importance), relativa às Zonas Húmidas de Importância Internacional como Habitat de Aves Aquáticas, graças à sua lagoa.

foodwithameaningCaldeira da Fajã de Santo Cristo_ilha de São Jorge

Deixámos o carro na fajã dos Cubres e fizemos o percurso pedestre  de 4 quilómetros até à Fajã da Caldeira de Santo Cristo. A vista de montanha permitiu-nos apreciar cenários que remotam ao imaginário do filme Jurassic Park (dinossauros à parte); a abundância de nascentes que brotam das rochas altas e caem em forma de cascata possibilitou tomar banhos em pequenas piscinas naturais, cujas águas  descem as escarpas saltitando montanha abaixo ao encontro do mar.

Caldeira da Fajã de Santo Cristo_ilha de São Jorge

Caldeira da Fajã de Santo Cristo_ilha de São JorgeCaldeira da Fajã de Santo Cristo_ilha de São JorgeCaldeira da Fajã de Santo Cristo_ilha de São Jorge

Corria o ano de 1891 esta fajã contava com 111 habitantes, chegando a ser criada uma escola primária que foi encerrada quando a população diminuiu e deixou de haver alunos. No dia 14 de outubro de 1960 foi inaugurado um Posto Público de telefones e, mais tarde, uma rede eléctrica alimentada por um pequeno gerador. Também foi construído um cais no interior da lagoa para facilitar o varar dos barcos que até ali era feita até ai no calhau.

Caldeira da Fajã de Santo Cristo_ilha de São JorgeCaldeira da Fajã de Santo Cristo_ilha de São Jorge

O terramoto de 1980 causou desmoronamentos em ambos os acessos da fajã, destruiu a rede telefónica que contava com seis unidades, e isolou a Caldeira de Santo Cristo do resto do mundo. Os habitantes tiveram de ser retirados por um helicóptero da Força Aérea Portuguesa. Muitos deles fixaram residência noutros pontos da ilha de São Jorge e outros emigraram. Presentemente, das cinquenta casas antigas, algumas foram restauradas, enquanto outras continuam abandonadas. Nos últimos anos têm sido construídas casas pertencentes a pessoas que cá vêm passar férias. Há poucos habitantes permanentes na fajã sendo um deles o guarda da Reserva Natural.

Caldeira da Fajã de Santo Cristo_ilha de São JorgeCaldeira da Fajã de Santo Cristo_ilha de São JorgeCaldeira da Fajã de Santo Cristo_ilha de São Jorge

Com os temporais, sempre fortes nesta costa voltada a norte e o consequente mar bravo, deu-se o entulhamento do canal que ligava a lagoa ao mar. É uma lagoa de águas muito quentes e por isso frequentada por banhistas e veraneantes de toda a parte. O acesso à fajã é feito a pé ou de mota, mas, para preservar a calma do local, foi estabelecido um horário restrito de circulação dos motociclos, quase todos de quatro rodas, que transportam malas térmicas e mercearia para as casas habitadas.

Caldeira da Fajã de Santo Cristo_ilha de São Jorge

Caldeira da Fajã de Santo Cristo_ilha de São Jorge

A imponente igreja desta fajã, cujo patrono é o Senhor Santo Cristo, foi benzida no dia 10 de Novembro de 1835. Desde essa altura que se transformou num local de culto onde vão devotos de toda a ilha. Vão para o pagamento de promessas e pedidos de graças.

Caldeira da Fajã de Santo Cristo_ilha de São JorgeCaldeira da Fajã de Santo Cristo_ilha de São JorgeCaldeira da Fajã de Santo Cristo_ilha de São Jorge

A Fajã de Santo Cristo é um dos locais mais recônditos da ilha de São Jorge e graças à ondulação aqui existente e ao extraordinário envolvimento paisagístico,  é considerada um santuário do bodyboard e surf, sendo procurada por praticantes da modalidade vindos de todo o mundo. Cruzámo-nos com alguns surfistas que se dirigiam para as pequenas casas de pedra, em cujos muros se viam fatos de mergulho e outro equipamento a secar.

fonte da informação históricaCaldeira da Fajã de Santo Cristo_ilha de São Jorge

Depois do passeio obrigatório pela fajã, esperávam-nos no único restaurante do local as famosas ameijoas.

Caldeira da Fajã de Santo Cristo_ilha de São Jorge

Assim que lá chegámos, fomos recebidos com muita simpatia pelo senhor Emanuel, rapaz para a minha idade, que há dezasseis anos é um dos poucos habitantes fixos da fajã, e por um moço, o Roberto, natural da ilha Terceira, que decidiu amealhar para a faculdade trabalhando como empregado de mesa durante o verão. O Roberto confessou-me que fazia um mês que não saía da fajã e que não sentia falta da civilização. O Emanuel, que se intitula “a alma da fajã”, é uma das pessoas mais cativantes que conheci nos últimos tempos. É conhecido pelas suas quadras e pensamentos espontaneamente profundos.  Quando soube que eu e o meu marido tínhamos decidido comemorar o dia em que fazíamos dezasseis anos de casados na “sua” Caldeira, forma carinhosa como se referia ao lugar da fajã, pediu permissão  para nos cantar uma canção de amor, de Roberto Carlos. Aceitámos com um misto de surpresa e comoção. O Emanuel terminou a intervenção com este pensamento, que de imediato escrevi para que pudesse ficar registado: “A água serve para matar a sede e lavar o corpo e o amor para cultivar a alma”. Fez ainda questão de nos oferecer o café e uma aguardente de ginja, feita por ele ali no lugar da fajã. Confidenciou-me que espera que a fajã mantenha sempre o espírito de lugar à parte, e de difícil acesso para que seja preservada e acarinhada. Tem consciência de que o facto de não haver linhas telefónicas fixas, de não dispor no restaurante de multibanco e de a luz elétrica provir de um gerador pode afastar algum nicho de clientela, mas sabe que a fajã também é reconhecida por ser um mundo à parte, cada vez mais procurado por pessoas que pretendem descanso e total harmonia com a natureza envolvente.

Caldeira da Fajã de Santo Cristo_ilha de São JorgeCaldeira da Fajã de Santo Cristo_ilha de São JorgeCaldeira da Fajã de Santo Cristo_ilha de São Jorge

Era uma da tarde, esperávamos pela entrada no alpendre do restaurante, com ampla vista para a lagoa, quando o Emanuel nos informa que o pão fresco ainda não tinha sido entregue pelo que se não quiséssemos esperar mais um pouco, servir-nos-ia, pão de véspera. Aceitámos sem problemas. Quantas vezes em nossas casas o mesmo acontece e ninguém desespera por esse motivo. O pão de trigo e o de milho chegou na cesta, que acompanhava o prato das ameijoas, e o milagre operou-se: ninguém podia dizer que aquele era pão do dia anterior. Pairava a magia da receita secreta daquela entrada de ameijoas especiais.

Caldeira da Fajã de Santo Cristo_ilha de São JorgeCaldeira da Fajã de Santo Cristo_ilha de São JorgeCaldeira da Fajã de Santo Cristo_ilha de São JorgeCaldeira da Fajã de Santo Cristo_ilha de São JorgeCaldeira da Fajã de Santo Cristo_ilha de São Jorge

Espero que este post tenha despertado em vós a vontade de provarem um dos ex-libris da gastronomia açoriana: a ameijoa da fajã da Caldeira, aproveitando a oportunidade para respirarem a magia presente neste lugar único do planeta.

fonte da informação histórica

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Ovos com tomate…memórias de verão

ovos com tomate_foodwithameaning

Desde a minha infância que recordo este prato.
Assim que a escola acabava, em finais de Junho, começavam os preparativos para as férias de Verão. Significava pensar no que levaria no saco para uma temporada de três meses nas ilhas do Pico e do Faial, como encontraríamos a casa da avó, que ficava fechada todo o ano, porque ela morava connosco, e que sabíamos que tínhamos que começar a limpar: a arejar os colções, a lavar os lençóis, que permaneciam guardados na cómoda antiga, dobrados da mesma forma como tinham sido deixados.
Os meus pais, ambos professores, ficavam para trás, ao serviço, até finais de Julho, mas nós duas, mais tarde, nós três, seguíamos com a avó e bisavó materna de barco, numa viagem infindável, porque eram cerca de sete horas no barco Terra Alta ou no Espírito Santo, rumo à ilha do Pico. Foram vinte e tal anos da minha vida em que todos os verões havia o mesmo ritual, o que, para nós, era uma alegria porque já tínhamos os amigos de verão à nossa espera.
E começava a aventura: os banhos de mar, as festas, as visitas a parentes e as novas amizades.
Recordo que, depois de nos instalarmos, todas as vizinhas nos vinham visitar e, como já não nos viam há um ano, traziam-nos do que produziam: batatas, maçarocas de milho, que cozíamos com sementes de funcho, cebolas e alhos, ovos caseiros e tomates, estes últimos da qualidade coração de boi, como a minha avó dizia. Eram grandes, sumarentos e carnudos, ideais para a confeção deste prato, muito popular nessa época, e que eu resolvi revisitar trazendo-vos aqui esta receita que poderá já caído no esquecimento de algumas cozinheiras.

ovos com tomate_foodwithameaning

Ingredientes

8 ovos
10 tomates
1 cebola
2 dentes de alho
especiarias a gosto (utilizei pimenta preta)
sal
azeite
azeitonas recheadas com pimentos (marca Flor do Pereiro)
salsa para decorar

1.Retirei a pele aos tomates e triturei-os com a varinha mágica.
2. Fiz um refogado em azeite com a cebola e alho.
3. Adicionei o tomate, temperei e deixei cozinhar até secar os sucos e estar cozido.
4. À parte, bati com um garfo os ovos. Temperei-os com sal e pimenta. Adicionei-os ao tomate. Misturei tudo.Fui mexendo até os ovos se encontrarem cozinhados.
5. Coloquei o preparado numa travessa e polvilhei com salsa.

Lembro-me de fazer sandes com as sobras do almoço de ovos com tomate e de levá-las para a costa, como se diz no Pico. À beira-mar elas ainda sabiam melhor!

E lá íamos a pé para o mar, que ficava já ali.

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Uma ótima semana!

Patrícia

De volta

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Voltei de uma viagem aos verões da infância e aos lugares de outrora, que me aconchegam sempre. Voltei de dois universos diferentes: da ilha montanha, o Pico, a mais alta em tantas coisas, e da ilha do Faial, um misto de paisagens. Infiltrei-me no azul e no verde, como se eu fosse um elemento intruso e, ao mesmo tempo, uma partícula integrante da mesma natureza. Respirei tanto mar e tanto campo, espaços que elejo e valorizo porque fui habituada desde cedo a eles. Perdi-me no negro da extensão da rocha basáltica até chegar ao mar. E o tempo foi de convívio entre a família distante. Foi de rever amigos, de relembrar histórias e episódios do passado.  Foi de conhecer pessoas novas, que me prenderam pelas suas perspetivas e modos de estar na vida. Foi de ouvir. Foi de conversar. Foi de tirar conclusões. Foi de aprender. Foi de ler muito e muito, sem hora marcada para acabar. Foi de ouvir os cagarros nos serões noturnos. Foi de fotografar aos fins de tarde. Foi de desejar congelar momentos. De querer registar. De fazer tantas coisas sem integrar rotinas. E senti-me tão bem neste descanso quase sem calendário.

As férias recebem o condão de nunca serem em demasia.

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Que lindo o meu Pico visto da nossa casa de verão!

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Antes de visitar a Quinta das Rosas, vejam como da ilha do Pico vi a ilha do Faial com os ilhéus pelo meio.

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Na Baía de Canas

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A única praia de areia da ilha do Pico situa-se em Baía de Canas e carateriza-se por ter areia muito fina e escura. O caminho até lá
chegar tem de ser feito a pé em percurso arenoso ladeado de canavial. Muito agradável e recôndita.

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À conta do mergulhador cá de casa, nunca faltou peixe fresco e lapas em casa.
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A ilha do Pico é também conhecida pelas suas piscinas naturais. Esta localiza-se em S. Roque.

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A ilha do Pico e a do Faial devido à sua proximidade premeiam-nos com agradáveis passeios de barco pelos ilhéus.
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Chegada à ilha do Faial. Um presépio visto do mar.

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Baía do Porto Pimfoodwithameaning

Um cagarro- ave noturna-  quase imóvel porque encadeado pela luz do dia.foodwithameaning

Praia de Porto Pim

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Parque de S. João – Ilha do Pico- zona de piqueniques e lazer

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Piscinas da Furna – ilha do Pico

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Guindaste- Furna – local de nidificação de cagarros e aves marinhas- paisagem protegida

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Quem vai ao Pico tem paragem obrigatória nas adegas.

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São servidos? Eu fui.foodwithameaning

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Arcos do Cachorro- Apontamento decorativo numa janela de uma casa de veraneio junto ao mar.
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Mero- espécie protegida.

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Garoupafoodwithameaning

Vista para o mar das piscinas das Ribeiras

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Passagem de barco pela ilha de S. Jorge.

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Vila das Velas- ilha de S. Jorge

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Para além dos passeios, a pesca de costa fez as delícias das crianças.

Melhor pescaria das férias: 5 canas de pesca+ 1 pescador “profissional”+ 4 pescadores amadores= 123 carapauzinhos numa período de uma hora.

Um dos pontos altos das férias, sem dúvida.

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Enquanto pescávamos, fomos surpreendidos por este garajau curioso. Lindo!

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Aqui estão os carapauzinhos no pau acompanhados com inhame do Pico e curtume de perrexil e servidos em pratos antigos da minha avó.

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Vamos então à receita.

1. Escama-se o peixe e retiram-se as entranhas com os dedos.

2. Lava-se o peixe.

3. Enfileira-se peixes uns a seguir aos outros, espetados em pauzinhos de madeira.

3. Tempera-se com sal e reserva-se durante uma hora.

4. Seca-se o peixe em papel de cozinha antes de envolver em farinha de milho amarela e levar a fritar em óleo.

Obs. Os pauzinhos de espetadas facilitam o virar do peixe durante a fritura.

5. Acompanha-se com inhame cozido e curtume.

E com a minha foto eleita das férias no Pico me despeço. Foi tirada na Quinta das Rosas, num dia perfeito.

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Voltei com pena de não ter subido a montanha do Pico. Fi-lo à vinte anos atrás. Está na lista de intenções voltar a fazê-lo. Fica aqui prometida a reportagem desse feito.

E neste voltar  a casa sinto que estas ilhas são o melhor lugar do mundo, ou melhor, o centro do mundo, como afirma o escritor açoriano  Joel Neto na crónica de 28 de julho.

Agora o lazer fará parte  dos fins de tarde, ainda luminosos, e dos fins de semana.

Voltei  “ao sabor do vento e das vontades”.

Espero que, mesmo assim, continuem por aí.

Patrícia