Um olhar sobre… a feira do gado

Um campo aberto ao céu na Vinha Brava. Um terreno quase baldio, não fosse pertencer aos Serviços Agrários. Um local que madruga todos os domingos; que assiste, com o nascer do sol como cúmplice, à chegada das primeiras carrinhas com atrelados carregados de animais, de fruta, de legumes, de plantio e de árvores de fruto. Vêm de longe e de perto. Religiosamente todos os domingos. Um ritual apenas interrompido um único domingo por ano: o do Bodo. Um espaço onde as gentes se tratam pelos nomes ou por Ti Manel e Ti Maria, no caso dos forasteiros, clientes de circunstância. Um meeting point para os habitués, onde, de pé junto às cestas e aos carros se discute podas, sulfatos, luas e onde se ouvem clichés sobre política regional e nacional, que nada acrescentam nem resolvem, mas que se soltam ali, da boca de quem trabalha a terra ou trata do gado, em pequenas frases terapêuticas. Corações simples mas grandes. Mãos ásperas, habituadas a esgravatar na terra, à procura de sustento, enchem-nos os sacos, ausentes de publicidade, simples, num tom único, como se o seu conteúdo dispensasse técnicas de marketing.




Um lugar onde um dos poucos latoeiros da ilha e um ferreiro mostram a sua arte.  O primeiro vende todo o tipo de formas de bolos e bolinhos, de latão e alumínio, candeias, bilhas de leite em miniatura para colecionadores e crianças que depois da compra se as passeiam  contentes pela feira. O segundo, homem da bigorna, exibe o produto do seu trabalho de ferreiro e forjador. Dois homens com quem se gosta de conversar e com quem se aprende.

Um cantinho para as doceiras que vendem encantos de açúcar: barquinhas de côco, queijadas de feijão e de amendoim Donas Amélias, donetes, suspiros de limão e doces tradicionais nas épocas festivas.

Um espaço mágico para as crianças da cidade que, na falta de contato com animais do campo veem aqui uma oportunidade de interagirem com estes, desde os maiores: cavalos, burros, vacas, porcos, aos mais pequenos: cabras, coelhos, porquinhos-da-Índia, hamsters, galinhas, galos e pintainhos, patos, patas e patinhos. E é ver os pais babados, de máquina fotográfica na mão (e faço parte deste grupo), a registar momentos de interação dos filhos com os animais, como se de um jardim zoológico oficioso se tratasse, com a particularidade de se poder afagar o pêlo ou a pena, facto proibido em  qualquer jardim zoológico oficial.

Um local onde cada um dispõe e expõe os produtos à sua maneira e segundo a sua sabedoria, muitas vezes inversamente proporcional à escolaridade. Ali está na caixa da carrinha ou em cestos o que se tem, o que se ajuda a crescer nos quintais, hortas, terrenos e pastos e o que se confeciona nas cozinhas.

Este ajuntamento dominical não é porém cartaz turístico sinalizado. Contudo, naquele terreno reside a alma de muita gente, a génese da ilha e uma fração da açorianidade.

De lá trouxemos hoje, e mais uma vez, muitos conselhos, de experiência feitos, para a nossa horta e para as nossas árvores de fruto e estes figos e maracujás que nos proporcionaram uma sobremesa de domingo deveras genuína.

Anúncios