A festa do pão dado pelo Divino – parte II

Aqui nos Açores celebramos este fim de semana as festas do Espírito Santo. O ano passado escrevi sobre os rituais desta tradição açoriana.

Este ano, trago-vos a reportagem fotográfica para que conheçam pormenores da festa e deixo-vos a receita do alfenim, um doce típico desta época.

Festas do Espírito Santo na ilha Terceira

Festas do Espírito Santo na ilha Terceira

No interior dos impérios o altar é enfeitado com as coroas do Espírito Santo.

Festas do Espírito Santo na ilha Terceira

Estas coroas são utilizadas no final da missa para proceder à coroação dos mordomos da festa, quem fez promessa ao Espírito Santo e quem detém toda a despesa que envolve a festa, na qual se inclui o pão.
Festas do Espírito Santo na ilha Terceira

Algumas janelas dos impérios são engalanadas com toalhas e bandeiras com os símbolos do Espírito Santo. Esta temática encontra-se também expressa através de trabalhos em prata e estanho.Festas do Espírito Santo na ilha Terceira

Para além do império, e em anexo a este, encontra-se a Despensa do Império. Nesta guarda-se o pão que será distribuído na festa, o vinho e algumas brindeiras, pequenos pães de massa doce distribuídos às crianças da coroação.Festas do Espírito Santo na ilha Terceira

Quem visitar a despensa do império poderá experimentar alguns petiscos locais: as favas escoadas, a carne assada, o queijo, a massa sovada… e provar o vinho.

As senhoras que se encontravam por detrás dessa mesa, quando lhes pedi se autorizavam as fotografias disseram-me: E depois das fotos, a menina  faça o favor de gastar! Fazemos questão!

Achei interessante o termos “gastar” pois apesar de noutros contextos implicar despesa, ali significava algo dado com o coração, o que não invalida uma pequena contribuição colocada na coroa se a pessoa assim o entender.

Festas do Espírito Santo na ilha Terceira

O pão para a distribuição à saída da Despensa do Império.

Festas do Espírito Santo na ilha Terceira

As cestas em que o pão é distribuído são muitas vezes revestidas de toalhas brancas com rebordos em renda fina.

Festas do Espírito Santo na ilha Terceira

Festas do Espírito Santo na ilha Terceira

Festas do Espírito Santo na ilha Terceira

Nestes dias de festa, as crianças vestem-se com vestidos brancos para participarem nas coroações. Os sacramentos da Primeira Comunhão e do Crisma são tradicionalmente ministrados nesta altura festiva.Festas do Espírito Santo na ilha Terceira

Algumas freguesias distribuem pão doce e outras o tradicional pão de água.

Festas do Espírito Santo na ilha Terceira

As filarmónicas locais abrilhantam as procissões e o arraial da festa.

Festas do Espírito Santo na ilha Terceira

Nas freguesias das Lajes e da Vila Nova, é tradição a decoração destes carros com colchas e toalhas alvas, raminhos de verdura e fitas de cetim.

No seu interior encontram-se petiscos feitos pelos donos, normalmente oferecidos aos amigos que por ali passam.Festas do Espírito Santo na ilha Terceira

O Alfenim é o doce típico destas festas. A par com os pães de massa sovada, as rosquilhas, também de massa doce, o alfenim é presença obrigatória nos altares dos impérios, fazendo parte depois dos produtos que são arrematados no fim da festa.Festas do Espírito Santo na ilha Terceira

Na próxima semana teremos aqui no blog as tradicionais sopas do Espírito Santo, a célebre alcatra à moda da ilha Terceira e o tradicional arroz doce.

Abaixo, duas fotos de uma menina feita em alfenim, uma oferta que os meus pais fizeram à minha pequenita.

Festas do Espírito Santo na ilha Terceira

Festas do Espírito Santo na ilha Terceira

A arte em alfenim e a receita.

Uma excelente semana para todos. Por cá gozamos de feriado regional.

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Arte em Alfenim

Terminaram  as festas da Cidade de Angra, às quais  fiz referência aqui. Ontem à noite, no regresso a casa, ainda a pé pela rua da Sé, deparei-me com uma montra dedicada ao alfenim. Não resisti a fotografar esta manifestação de arte. Food with a meaning.

A palavra Alfenim vem do árabe “al-fenid” e significa aquilo que é branco, alvo. O Alfenim era uma  gulodice oriental  muito popular em Portugal nos finais do século XV e princípios do século XVI, aparecendo citado em obras de Gil Vicente e de Jorge Ferreira de Vasconcelos.  Veio para os Açores com os primeiros elementos mouriscos que aqui se fixaram, sendo a sua divulgação facilitada com a produção de cana-de-açúcar, verificada até aos finais do séc. XVI. Com o decorrer dos tempos, a doçaria conventual apropriou-se do Alfenim, aperfeiçoando não só a massa como também as figuras que com a mesma se fazem  figuras humanas, de animais e de flores. Era oferta de luxo, mimo com que se presenteavam pessoas distintas, imprescindível na ornamentação da mesa dos noivos. O Alfenim ainda hoje é muito frequente e apreciado nas ilhas do grupo central, sobretudo aqui na ilha Terceira.

(adaptado de alfenim.no.comunidades.net)

receita

história do alfenim