O bolo dos 40 e a metade

Hoje atingi a metade. Quero muito acreditar nisso. Os genes da família pendem dessa forma, prolongando a esperança, mas os tempos e as vidas são outros. A alimentação difera das sopas de couve da minha avó. Agora não se come carne só nos dias de festa. Existem tantos fatores que nos são alheios e um deles é a sorte. Esta dita muitas vezes o nosso percurso. E, a falta dela, os desvios. Os quarenta são também sinónimo da intensificaçåo dos check up na saúde. Tudo se receia daqui em diante porque isto de se atingir a metade traz consigo uma curva descendente que culmina no pleonástico final countdown. Não sou pessimista. Sou realista. E tento tirar o máximo de partido dos dias e das noites. Gosto de esgotá-los. Dormir é infelizmente uma necessária perda de tempo. Sempre o foi para mim.

Há dias, achei graça a uma publicação de uma amiga que dizia que os trinta representam degraus de sabedoria. Pedi então que descrevesse os quarenta. Outra amiga retorquia então que nos quarenta os degraus são de omnisciência. Ela sabe do que fala. E isto destrói por completo a minha anterior teoria de que daqui para lá é sempre a descer. A vida é uma completa antíntese. Quando estamos no auge da juventude e do vigor não temos o descernimento para acordarmos cedo e abraçarmos a vida.    Mais tarde, poderão existir mais uns trocos mas de que valem se não compram juventude (plásticas à parte, claro) nem vigor. E este marco dos 40 desperta em mim a vontade de viver um dia de cada vez mas também de recheá- lo com listas e mais listas de propósitos, de sonhos, porque se já vivi muito e ainda falta outro tanto existe ainda um mar de emoções e de concretizações ao meu alcance. Que assim seja.

O bolo foi confecionado pela Paula, uma amiga especialista nestas artes. Os quarenta mereceram um bolo muito especial.

Happy Birthday to me!

Bolo de Baunilha com recheio de amêndoa e leite condensado

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Biscotti de cereja vermelha em calda e amêndoa salgada…. Vamos Fazer Bolachas?

Biscotti

Os biscotti , originários da cidade italiana de Prato (Biscotti di Prato), são biscoitos de massa seca e crocante, porque são cortados ainda quentes e assados duas vezes. Tradicionalmente, as amêndoas  fazem parte da receita, por isso, eu quis manter a tradição, apesar de uma porção delas serem tostadas e salgadas. Nesta minha versão, as cerejas vermelhas em calda trouxeram doçura e colorido à massa. Na Itália, os biscotti são servidos após a refeição com vinho, Vin Santo, ou vinho de sobremesa,  sendo mesmo mergulhados  no vinho antes de saboreados.

Respondi, assim, à última chamada do desafio da Manuela, Vamos Fazer Bolachas, este mês na categoria Biscotti, e arregacei mangas no sentido de saírem da minha cozinha as primeiras bolachas deste tipo. Para estreante, acho que até me safei bem.

biscotti

Ingredientes

2 chávenas e meia de farinha com fermento

3/4 chávena de açúcar

2 colheres de chá de fermento

5o ml de natas light

2 ovos grandes

45 g de cerejas em calda

45 g de amêndoa salgada torrada com casca

45 g de amêndoa laminada

1 colher de café de extrato de baunilha

 

Preparação

Num alguidar, ir adicionando a farinha, o fermento, os ovos, as natas e o açúcar aos poucos.

Quando estiverem muito bem misturados, junta-se a cereja cortada aos pedacinhos, a amêndoa laminada e a amêndoa salgada cortada grosseiramente às rodelas. A massa tende a prender-se às mãos pelo que terá de se ir juntando farinha.

Forra-se o tabuleiro do forno com uma folha de papel vegetal e coloca-se a massa em cima já com o formato de um tronco.

Coze em forno pré-aquecido a 200 ºC cerca de meia hora. Deixa-se arrefecer um pouco antes de fatiar. Utiliza-se uma faca de serrilha

Depois liga-se novamente o forno e levam-se as fatias a tostar levemente (cerca de 10 minutos), virando-as a meio da cozedura para que tostem dos dois lados. Retiram-se e deixam-se arrefecer. Guardam-se de imediato num recipiente hermético.

Biscotti

Muffins salgados de bacon fumado e chourição

Estes muffins salgados são daquelas coisas que apetecem. Foram feitos para levar para um lanche de amigos mas também poderiam fazer parte da merenda da escola, da marmita do almoço ou até de um cabaz de piquenique.  O sabor deste muffin fez-me viajar até ao folar transmontano, mas em formato pequenino e sem a riqueza interior do verdadeiro folar.

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Ingredientes e Preparação

Misturar de uma só vez os seguintes ingredientes:

2 chávenas de farinha de trigo com fermento

4 ovos

8 fatias de queijo cortado aos pedacinhos

150 gr de bacon fumado fatiado e cortado aos bocadinhos

80 g de chourição cortado aos pedacinhos

1/2 chávena de azeite

3 colheres de açúcar rasas

1 colher de sobremesa de fermento

1/2 colher de chá de sal.

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Colocar num tabuleiro de muffins as forminhas de papel e enchê-las com massa até 3/4.
Levar ao forno previamente aquecido durante 15 minutos ou até estarem cozidos.
Estas quantidades permitiram confecionar cerca de 20 muffins.

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Compota de cereja amarela

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Esta compota revestiu-se de um significado especial pois foi confecionada durante o mês de julho, em casa da minha sogra, na aldeia de Gimonde, concelho de Bragança. Depois de uma tarde bem passada na quinta de um amigo do meu sogro, em Quintanilha, o regresso viu o porta-bagagem repleto de caixas de ameixas, pêras, figos e cerejas.  Ainda na quinta, e de escadote debaixo do braço, fomos os quatro até à cerejeira. Ficámos desde logo a saber que parte da fruta pertencia aos pássaros. Assim que estendemos a escada contra a árvore, saiu a esvoaçar um bando de aves saciadas. Tinha chegado a nossa vez. Enchemos dois sacos grandes ao mesmo tempo que saboreávamos as doces e viciantes cerejas, mesmo sem as lavar. Uma inconsciência que nos podia ter valido uma dor de barriga. Tivemos sorte.  Ao chegarmos a casa, o destino de parte das cerejas já estava traçado. E que docinhas eram estas cerejas amarelas.

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Para a minha filha, o alcançar os ramos pesados com as cerejas representou uma folia: um misto de excitação por estar longe do chão e de abundância por querer colher muitas cerejas.

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A tarefa mais difícil foi a de tentar colher as cerejas com os pezinhos, para que se conservassem por mais tempo. Por estarem tão madurinhas isto tornou-se quase uma missão impossível.
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Compota de Cereja Amarela

Ingredientes

3 kg de cerejas descaroçadas

2 kg de açúcar branco

2 paus de canela

2 copos  de água (400 ml)

4 cascas de limão sem a parte amarela

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Preparação
1. Lavar as cerejas em várias águas até sair o pó ou alguma sujidade. Escorrer muito bem.
2. Descaroçar a fruta e reservar.
3. Num tacho largo colocar o açúcar, os paus de canela  e a água; deixar ferver até fazer ponto de pérola*1
1* atinge-se o ponto pérola quando a calda, após cinco minutos de fervura, cai em fio formando uma bolinha na ponta.
4. Juntar as cerejas e deixar que levante novamente fervura. Baixar o lume para o mínimo.
5. Ao fim de cerca de hora e meia, juntar as cascas de limão.
6. Deixar cozer até fazer ponto de estrada*2
2* atinge-se o ponto de estrada quando ao  passar uma colher de pau no fundo da panela, ou na porção de doce que colocarmos num prato,  se formar uma estrada que não se une de imediato.
7. Retirar os paus de canela e as cascas de limão.
8. Verter o doce ainda quente para frascos esterilizados. Fechar de imediato e virar os frascos ao contrário para que criem vácuo.
Dica. Esta compota fica deliciosa com qualquer tipo de pão, mas conjugada com queijo fresco é mesmo saborosa.
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Uma boa semana para todos!

Patrícia

Salada de lapas e polvo na despedida do verão

Este ano o verão resolveu armar-se em adolescente. Foi mal-humorado, inconstante e sempre desejoso de se ir embora. Foi a estação que tivemos. Pronto. Nos intervalos destes humores estivais e da vontade própria das águas-vivas, que teimaram em não deixar as ilhas, levadas pelas correntes, conseguiu-se apanhar uns banhos de sol e gozar-se as águas frescas do meio do atlântico. Ouvi até comentar que este ano houve uma aumento de aquisição de piscinas por parte das famílias: uma forma de se evitar as alforrecas e de se estar em ambiente controlado,  certamente  mais conveniente, entre a churrasqueira e as “frescas”.

Esta salada pertenceu a um almoço de verão e soube-nos muito bem. Poderão consultar a receita no Receitas ao Desafio.

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O primeiro dia

o primeiro dia

Lembro-me, como se fosse hoje, do meu primeiro dia na escola primária. Foi diferente e isento de novidade. Já conhecia a escola. Situava-se numa freguesia rural , pertencia ao Plano dos Centenários. Era rodeada por cerrados. Tinha um campo de futebol na frente cercado com rede alta. Era apenas constituída por quatro salas e por um pátio nas traseiras, ladeado por hortênsias e bancsias. Era o local onde os meus pais trabalhavam há vários anos, como professores, e para onde eu ia muitas vezes enquanto eles estavam em reuniões. Conhecia, por isso, todos os cantos daquele espaço. Ficava muitas vezes cá fora a brincar nos jardins. Com paus e folhas criava menus feitos em panelas imaginárias e estendia toalhas fictícias em cima dos muros. Sabia-me entreter, como ouvia comentar à senhora Albertina, única funcionária, e quem  obrigava todas as crianças a beber leite branco ,que provinha de grandes jarros de plástico e jorrava para as nossas canecas azúis e vermelhas, também de plástico. Como detestava essa hora do leite. Rara era a vez que não engendrava forma de não o beber ora distribuindo-o por algumas canecas ora trocando a minha caneca cheia com a do colega do lado. Abominava o cheiro das canecas, mesmo depois de lavadas. Era um odor entranhado e indescritível que roçava o azedo. O primeiro dia do primeiro ano não foi então novidade. Nem a professora foi elemento surpresa. Seria a minha mãe. Já o sabia. Nessa altura era permitido. Uma dualidade difícil de gerir e digerir para uma criança de seis anos.
Hoje vivi o meu primeiro dia através dos olhos da minha filha, como penso que todas as crianças vivem. Hoje pude vivenciar a ansiedade de se conhecer a professora pela primeira vez, o desejo de ver a nova sala e de identificar a carteira onde a minha filha se vai sentar, a partir da qual se vai processar muita da descoberta do mundo, de onde vão ser colocadas muitas dúvidas e criados muitos projetos e onde vão ser dispostos os livros e o material escolar comprados para operarem magia. Aprender é um ato mágico. E hoje todos os pais saíram da sala daquela escola grande descansados por saberem que os filhos e filhas estavam muito bem entregues. E todos os meninos e meninas voltaram para as suas casas com vontade de regressar. Hoje foi também o meu primeiro dia.

Ovos com tomate…memórias de verão

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Desde a minha infância que recordo este prato.
Assim que a escola acabava, em finais de Junho, começavam os preparativos para as férias de Verão. Significava pensar no que levaria no saco para uma temporada de três meses nas ilhas do Pico e do Faial, como encontraríamos a casa da avó, que ficava fechada todo o ano, porque ela morava connosco, e que sabíamos que tínhamos que começar a limpar: a arejar os colções, a lavar os lençóis, que permaneciam guardados na cómoda antiga, dobrados da mesma forma como tinham sido deixados.
Os meus pais, ambos professores, ficavam para trás, ao serviço, até finais de Julho, mas nós duas, mais tarde, nós três, seguíamos com a avó e bisavó materna de barco, numa viagem infindável, porque eram cerca de sete horas no barco Terra Alta ou no Espírito Santo, rumo à ilha do Pico. Foram vinte e tal anos da minha vida em que todos os verões havia o mesmo ritual, o que, para nós, era uma alegria porque já tínhamos os amigos de verão à nossa espera.
E começava a aventura: os banhos de mar, as festas, as visitas a parentes e as novas amizades.
Recordo que, depois de nos instalarmos, todas as vizinhas nos vinham visitar e, como já não nos viam há um ano, traziam-nos do que produziam: batatas, maçarocas de milho, que cozíamos com sementes de funcho, cebolas e alhos, ovos caseiros e tomates, estes últimos da qualidade coração de boi, como a minha avó dizia. Eram grandes, sumarentos e carnudos, ideais para a confeção deste prato, muito popular nessa época, e que eu resolvi revisitar trazendo-vos aqui esta receita que poderá já caído no esquecimento de algumas cozinheiras.

ovos com tomate_foodwithameaning

Ingredientes

8 ovos
10 tomates
1 cebola
2 dentes de alho
especiarias a gosto (utilizei pimenta preta)
sal
azeite
azeitonas recheadas com pimentos (marca Flor do Pereiro)
salsa para decorar

1.Retirei a pele aos tomates e triturei-os com a varinha mágica.
2. Fiz um refogado em azeite com a cebola e alho.
3. Adicionei o tomate, temperei e deixei cozinhar até secar os sucos e estar cozido.
4. À parte, bati com um garfo os ovos. Temperei-os com sal e pimenta. Adicionei-os ao tomate. Misturei tudo.Fui mexendo até os ovos se encontrarem cozinhados.
5. Coloquei o preparado numa travessa e polvilhei com salsa.

Lembro-me de fazer sandes com as sobras do almoço de ovos com tomate e de levá-las para a costa, como se diz no Pico. À beira-mar elas ainda sabiam melhor!

E lá íamos a pé para o mar, que ficava já ali.

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Uma ótima semana!

Patrícia