Línguas de perguntador

Desde há tempos que tenho intenção de publicar esta receita por não ser um prato que se confecione com muita frequência e também por me trazer recordações. Lembro-me, com bastante clareza, da primeira vez que comi língua estufada. Já era grandita. Frequentava o 10º ano e tinha ido passar o fim de semana com a minha prima Eduarda, da mesma idade, que morava com os pais no farol das Contendas, aqui na ilha. Era hora de almoço e chamaram-nos às duas para a mesa. Cheirava maravilhosamente na cozinha. Assim que o guisado de carne me foi servido, acompanhado de batatas rosadas (batatas cortadas aos quartos, fritas e posteriormente inseridas no molho da carne) comecei a comer como se não houvesse amanhã. Os ares da costa abrem o apetite e tínhamos acabado de descer a enorme escadaria de caracol que nos trouxe da torre prismática branca encimada por uma cúpula vermelha até ao edifício anexo onde se encontravam as casas dos faroleiros. A mãe da Eduarda, sabendo que eu sempre fora desde pequena esquisita no que diz respeito à comida, perguntou-me se tinha gostado do almoço. Eu respondi prontamente que sim, que tinha adorado a carne guisada. Quando ela me disse que eu tinha acabado de comer língua de vaca, fiquei sem ação e psicologicamente nauseada, como se tal fosse possível. De imediato, enchi o meu copo de sumo, até ao cimo, pensando que dessa forma diluiria a ideia de ter comido língua. Nunca mais comi língua a partir desse dia até há uma semana atrás. Uma verdadeira tolice este interregno temporal tão extenso. E esta língua estufada serviu então para tentar gerir e eliminar receios. Consegui. Desafio ultrapassado. Dispenso, porém, o trabalho de lhe retirar a pele. Deixei essa tarefa para um dos funcionários do talho que frequento no mercado municipal. Assim, a língua já chegou a casa limpa, fatiada e pronta a cozinhar. Este prato, desta vez confecionado por mim e não pela mãe da Eduarda, revelou-se uma delícia. Agora sim, já posso acrescentar língua ao cardápio. Continua de fora o arroz de cabidela, as tripas à moda do Porto e outras miudezas. Quem sabe com a idade passe a apreciar. Tal como o gosto, os sabores também se educam.

Língua estufada

língua estufada

 

Ingredientes

1 língua de vaca

1 pimento vermelho

1 lata pequena de tomate triturado

1 copo de vinho tinto

1 cebola

4 dentes de alho

1 folha de louro

1 colher de café de cominhos moídos

2 bagas de piri-piri

4 bolas de pimenta da jamaica

2 cravinhos

1 caldo de carne

água para cobrir a carne

sal

língua estufada

Modo de Preparação

1. Num tacho, alourei a cebola e o alho e adicionei o pimento às tiras. Deixei refogar o pimento.

2. Adicionei a língua fatiada e envolvi com a colher de pau.

3. Juntei o copo de vinho, o tomate, o caldo de carne, a folha de louro e as especiarias. Deixei levantar fervura.

4. Temperei com sal e cobri a carne com água.

5. Tapei o tacho e deixei que a língua guisasse durante uma hora e um quarto em lume brando. Mexi  de vez em quando. Deixei apurar o molho.

Acompanhei a língua estufada com arroz basmati cozido.

arroz basmati

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13 thoughts on “Línguas de perguntador

  1. Graça

    Desde pequena que como língua de vaca em casa dos meus pais e sempre apreciei. Neste momento tenho 3 à espera de serem confecionadas e esta é uma boa receita para variar da habitual!

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  2. Lia

    Olá Patrícia.
    É incrível como o psicológico nos influencia de modo a, por vezes, e como é o caso, perdermos montes de tempo a contestar algo sem sentido.
    Eu como língua desde pequena, pois a minha mãe fá-la divinamente e sempre adorei e adoro todas as outras miudezas que enumeraste, com excepção do arroz de cabidela que esse, também ainda não me desce muito bem garganta abaixo…
    Adorei esta tua versão perfumada e aromática e como os olhos também comem, eu já provava…
    Beijinhos grandes e boa semana,
    Lia.

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  3. Miguel O.

    Sem sombra de dúvida um excelente prato que se recomenda sempre que seja bem confeccionado, como é o caso do que aqui se apresenta. Arroz de sarrabulho, é, para mim, o que não repito há mais tempo.

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  4. Maria João Leal

    Xiiii…. Patrícia, este teu post teve o dom de me transportar para a infância! A minha mãe fazia muito e eu adorava! Lembro-me de, quando soube que parte o bicho era – e isto aconteceu já eu era irremediavelmente fã da “carne macia” – ficar um pouco apreensiva… mas, nessa altura, já era tarde! 😉
    Ficou com excelente aspeto!
    Beijinhos

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  5. Ginja

    Já viste como a nossa cabeça nos influencia e tanto no que comemos e na maneira como olhamos para certas coisas.
    Olha que eu nem sou muito destas coisas confesso, desde que tirei o curso e andei pelos matadouros que vejo tudo de outra forma e não cosnigo mesmo comer algumas coisas, mas que ficou com bom aspecto ficou! E admiro a tua coragem e persistência!
    Um beijinho.

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  6. Lina

    Olá Patricia, lingua é das pouquissimas coisas que eu não consigo mesmo comer Tentei uma vez em casa da minha sogra (o meu ex-marido adorava) mas não consegui. Tem uma textura que me desagrada profundamente. E confesso que, desde então, nem quero pensar nisso… Ainda bem que tu conseguiste ultrapassar, e consegues apreciar.
    Mas vê tu como as coisas são… adoro cabidela e tripas à moda do Porto 🙂
    Beijinhos

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  7. Isabel

    Patrícia,
    Eu adoro língua de vaca (ou de vitela). É daquelas receitas que me trazem a comida da minha avó materna à memória. Costumo comer precisamente quando vou passar férias ao Faial, feita por uma amiga do meu pai… pois infelizmente já não tenho avós (mais ainda tenho um avô com 95 anos ;-)). No ano passado, fiz pela primeira vez, com a ajuda da minha sogra (ela teve a maior trabalheira a limpar a língua)… Não correu mal 😉

    beijocas

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  8. elsa

    Olá Patricia,
    eu gosto dessa maneira,é assim que se faz na minha mãe…mas….. a minha sogra fazia lingua panada e eu agora só faço assim!!!
    as pequenas adoram!
    bjis.

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