Das coisas que valorizo

A idade e os acontecimentos tristes de que vou tendo conhecimento têm-me levado a refletir sobre a vida e a sua efemeridade. A vida é esse momento estranho entre o dia do nosso nascimento e o dia da nossa morte, li algures. Como torná-la significativa, como aproveitá-la na sua complexidade  e nos seus imprevistos é quase uma ciência não exata. Com o andar dos anos aprendemos a valorizar a família, os amigos verdadeiros (dos que nos magoam aprendemos a distanciarmo-nos) e, acima de tudo, tentamos realizarmo-nos fazendo a diferença na nossa vida e quando podemos na dos outros. Acredito que sendo professora acrescento todos os dias algo aos meus alunos, mas recebo a dobrar em todos os aspectos, especialmente quando o fruto do nosso esforço se reflete em notas boas e em elogios. O reforço positivo é tão fundamental no timing certo como a repreensão.

E de pequenos grandes momentos é composta a vida. Ontem, a hora do conto da secção infantojuvenil da Biblioteca de Angra do Heroísmo recebeu um convidado muito especial, o escritor José Luís Peixoto que despretensiosamente se sentou junto de muitos miúdos e pais atentos e lhes contou uma história. Como sou fã incondicional da sua escrita, e a minha filha já se iniciou na sua leitura, com A Mãe Que Chovia, ouvimos deliciadas o escritor em discurso direto. A interação com as crianças presentes excedeu todas as expetativas e foi delicioso escutar José Luís Peixoto a incluir as sugestões das crianças para construir e complementar a história que contava. Foi muito interessante o facto de ter aproveitado as tatuagens e os piercings que transporta para construir a história. O homem “com pregos nas orelhas“, como diz a minha filhota de cinco anos contou e encantou. Foram  duas horas muito significativas para miúdos e graúdos. Seguiu-se uma sessão de autógrafos e foi maravilhoso assistir à interação do escritor com os leitores de palmo e meio (muitos ainda apenas interpretadores de imagens). Uma criança que estava à minha frente perguntou ao escritor: Quando escreve não fica cansado? Ele respondeu: Fico muitoE o que faz então?, perguntou a criança. Ele respondeu: Tenho de descansar. Muitas vezes viajo para outros sítios. Outras vezes durmo e deixo que o corpo descanse e os sonhos pensem por mim.

Quando tive oportunidade de falar com o escritor, trocámos impressões sobre as nossas vidas (ele é uma pessoa que quer saber, que se importa com o outro). Em diálogo franco falei-lhe dos livros que tinha lido e dos meus favoritos e dos aspetos da sua narrativa de que tinham mais gostado. Foi um genuíno intercâmbio de ideias e senti que não há maior prazer para um escritor do que o ser lido e compreendido. Disse-me que apesar de já ter sido professor, também de inglês, como eu, quando lhe deram a oportunidade de ser escritor a tempo inteiro agarrou este sonho com as duas mãos. Acrescentou: A profissão de professor é das tarefas mais difíceis. 

Antes de me autografar Abraço, pegou no livro e disse: Este livro está mais leve do que antes. Os livros depois de serem lidos ficam mais leves, como se deles saísse o peso que carregam.

 José Luís PeixotoJosé Luís Peixoto

E eu, se pudesse tinha ficado ali na conversa até não haver mais nada para dizermos um ao outro, como se isso fosse possível.

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