Um bouquet de jarros para a Mané, uma sobremesa e uma história

O Bolo da Tia Rosa acaba de completar dois anos. Resolvi aceitar o convite da Mané.

Primeiro, gostaria de oferecer-lhe estes jarros do meu jardim.  As flores fazem toda a diferença numa mesa.

Espero que goste.

Jarros do meu jardim_foodwithameaning

Para cumprir o seu primeiro desejo, trouxe fruta para a festa. Esta veio, por sua vez, envolta em história, o outro pedido.
pastelão de maçã reineta_foodwithameaning
Pastelão de maçã reineta
Sou filha de pai faialense e de mãe picoense e  desde pequena que passava os verões ora na ilha do Faial ora na do Pico com os meus avós paternos e com a minha avó e bisavó materna. A mãe do meu pai e as minhas tias tinham o costume de fazer esta sobremesa. Denominavam-na de pastelão de maçã. Sempre achei a palavra pastelão curiosa, mas, de facto, a sobremesa culminava num grande pastel ou empada feita num tabuleiro retangular. Elas utilizavam as maçãs locais, raiadas de vermelho, ácidas e sumarentas, trazidas pelas mulheres da fruta que vinham de barco vender maçãs, figos e uva para a ilha do Faial. Chegavam na lancha das sete e às oito da matina já lá estavam no mercado com os seus cestos de vime cobertos com toalhas xadrezes, brancas e vermelhas. Traziam-nos à cabeça, desde o cais de desembarque até ao mercado, numa distância de cerca de um quilómetro. Mulheres rijas, estas, que arranjavam sempre lugar no cesto para também incluírem pão e bolo de milho, doce de amora e de figo, queijo e curtumes. Tenho o aroma proveniente dos seus cestos gravados na minha memória. Que saudades desses tempos!
Em criança apenas assistia ao ritual de fazer o pastelão. Mais tarde, já mocinha com juízo para pegar numa faca, ajudava-as a descascar as maçãs. A minha avó, sempre atenta ao que eu fazia, relembrava-se muitas vezes que tinha de certificar-me se nas maçãs existia alguma lagartinha. Eu, sempre com algum receio, pois não gostava de ver as lagartinhas a contorcerem-se,  encontrava um bicharoco cá e lá. Na época não se colocavam nas árvores de fruto os pesticidas que existem hoje nem na fruta os vernizes que a tornam luzidia e atraente.
Aquelas maçãs eram tão saborosas! Doces memórias!
Vamos então à receita que já estou com a lágrima no olho.

Ingredientes para o recheio
Maçã reineta ou maçã do Pico
Açúcar q.b.
Canela q.b.

Ingredientes para a massa

250 g de manteiga com sal

600 g de farinha tipo 65 (sem fermento)

3 colheres sopa de açúcar

água morna para ligar a massa

Preparação
Num alguidar, coloca-se a farinha e o açúcar e faz-se um buraco no centro. Vai-se adicionando a manteiga amolecida e incorporando os ingredientes com as mãos.

Numa tigela, coloca-se um pouco de água morna. Vai-se molhando as mãos e misturando a massa até esta se desapegar do alguidar.

Formam-se duas bolas de massa, uma maior do que a outra, que repousam no frigorífico cerca de uma hora numa tigela tapada ou envoltas em película aderente.

Neste entretanto, descascam-se as maçãs e cortam-se em meias luas. Misturam-se em açúcar e canela. (Na minha versão mais moderna eu gosto de acrescentar uma raspinha de limão, mas a receita primordial não contempla esse ingrediente)

Com recurso a um rolo, estende-se a massa em cima de uma superfície enfarinhada.

Eu gosto de estender a massa em cima de uma base plástica para estender massas, pois torna-se muito fácil forrar o tabuleiro já que viro a base  com a massa ao contrário e esta já “aterra” em cima do tabuleiro retangular. Convém estendê-la já com um formato de retângulo.

Com uma parte da massa, forro a base do tabuleiro, que foi previamente untado com manteiga. A massa da base do tabuleiro deve ser ligeiramente maior do que a que irá cobrir o pastelão, pelo que deve forrar todo o tabuleiro até ao bordo.

Dispõe-se a mistura de maçã, açúcar e canela por cima da massa e cobre-se com a restante, previamente estendida. Fura-se a massa cá e  lá com um garfo.

Pode-se reservar alguma massa e decorar o pastelão com trancinhas ou rosquilhas.

Pincela-se o topo com uma gema de ovo e vai ao forno até a massa estar cozida e alourada.

pastelão de maçã_foodwithameaning

&

Com esta receita e história participo na festa do segundo aniversário do Bolo da Tia Rosa.

Parabéns Mané!

Advertisements

17 thoughts on “Um bouquet de jarros para a Mané, uma sobremesa e uma história

  1. Mena Lopes

    Patricia nao sei se me conquistaram os jarros ou o pastelao!!! É que adorei os dois!! Tinha imensos à porta de casa da minha mãe…. E qto ao pastelão uma boa escolha para o blog da Mané! Ela vai ficar contente!!
    Um beijinho,
    Mena.

    Gostar

    • foodwithameaning

      És uma querida. Adoro jarros. Adoro pastelão. A vantagem dos jarros é que apenas engordam a vista. Já o pastelão…
      E já sei agora que a Mané ficou bem contente com a sobremesa e com as minha história.
      Um abraço aqui do meio do atlântico aí para Espanha.
      Patrícia

      Gostar

  2. Madalena Pereira

    Adorei esta história! De lágrima no olho, estou eu; sou picarota e este pastelão faz parte das minhas memórias mais doces assim como as maçãs que eram trazidas pelo meu pai.

    Gostar

  3. Mané

    Hoje recebi um bosques, lindíssimo vê uma sobremesa carregada de carinho. Patrícia,muito obrigada porteares vindo
    Estou deliciada com a tua história que me fez viajar à infância.
    Obrigada por me teres feito sentir especial

    Gostar

  4. blogduchocolate

    Patricia,

    Claro que a Mané só poderia adorar esta tua excelente participação. 🙂

    Uma participação que fala de outros tempos, dos aromas gravados na memória, dos paladares em jeitos de saudade, das gentes tão genuinas outrora !

    Adorei os teus jarros, lindíssimos com um ar fresco que faz apetecer tocar. e o teu pastelão de maçã ficou uma tentação a que seria impossível resistir, estivesse eu sentada nesa mesa. 🙂

    Beijinho querida,

    Gostar

  5. Isabel

    é tão engraçado quando as nossas memórias coincidem… mais uma vez 😉
    não me esqueço do pastelão de maçã da minha avó paterna, feito com aquela maçã pequenina e ácida do Pico, que nunca mais encontrei à venda (acho que desapareceu por causa das regras de normalização da fruta estabelecidas por aqueles senhores de Bruxelas que parece que nunca comeram comidinha da avó).

    beijos grandes

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s