Perrejil em curtume…um ritual

Não deixo passar um ano sem fazer este curtume. É uma tradição familiar, portanto. Assim, e apenas no mês de julho, quando o perrejil está verde e viçoso, dedico umas horas do meu dia  à apanha da planta e à preparação do curtume. O ano passado, publiquei a receita no Receitas ao Desafio. Este ano resolvi enriquecê-la com cebolas, pimentos, feijão verde e tomates da minha horta. Adicionei ainda uma folha de louro, uns dentes de alho e umas bagas de pimenta rosa em cada frasco.

Três semanas depois está pronto a comer.

Ficou uma delícia esta versão de 2012.

O curtume de perrejil faz parte de uma tradição açoriana que, infelizmente, se está a perder. Poucas pessoas da nova geração conhecem a planta e são por isso poucos os que lhe dão utilidade.
Este curtume não costuma estar disponível para venda ao público. Apenas algumas mercearias das freguesias junto à costa o vendem e em poucas quantidades por ser um produto artesanal. Recentemente, na freguesia dos Biscoitos, no norte da ilha, da qual já falei aqui, encontrei o curtume à venda numa banca de produtos regionais junto à zona balnear.

Poderão encontrar as restantes sugestões para a elaboração da receita no link Receitas ao Desafio, já referido, bem como algumas fotos da planta no seu habitat natural.

Este curtume acompanha peixe e moluscos na perfeição, como no caso destas lulas recheadas que publiquei o ano passado no Receitas ao Desafio.

Um bom fim de semana.

Versão de 2017

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Sopa de tomate e beldroegas em Rio das Flores

“Pedro falava enquanto metia à boca simultaneamente uma azeitona curada e um bocado de pão, o olhar já pousado na terrina de sopa de beldroegas com tomate e queijo de ovelha. Como sempre, e como em quase tudo o resto, era sôfrego a comer. De pouco tinham servido os anos e anos a fio que a mãe o repreendera pelas suas maneiras à mesa. Ele comia como se o mundo fosse acabar logo a seguir e a verdade é que contara sempre com o olhar complacente do pai, que não conseguia disfarçar que gostava da vitalidade animal do filho. Pedro era assim a comer, a trabalhar no campo, a dar ordens ao pessoal desde miúdo, a arrear e a montar a cavalo ou a caçar de salto, onde constantemente se adiantava à linha de caçadores que deviam caminhar em movimento sincronizado em forma de ferradura, e que ele estava permanentemente a desfazer, adiantando-se.

Estavam sentados à mesa da sala de jantar do monte, Maria da Glória e os seus dois filhos, os seus homens que agora lhe restavam. Ocupavam apenas uma ponta da imensa mesa, Maria da Glória na cabeceira onde sempre se sentara, do lado da copa e da cozinha, os filhos um de cada lado, como se a protegessem.”

Miguel Sousa Tavares, Rio das Flores

Ingredientes

4 tomates maduros (grandes)

1 cebola média

2 dentes de alho

1 courgette média

folhas de beldroega a gosto

sal

azeite

4 ovos

1,5 litros de água

Modo de Preparação

Num tacho colocar a cebola e os alhos picados, juntar azeite e deixar refogar levemente.

Juntar o tomate sem pele e sementes,aos pedaços, e deixar cozer.

Acrescentar a courgette descascada e também aos bocados. Mexer com uma colher de pau durante alguns segundos.

Adicionar a água e temperar de sal.

Quando a courgette e o tomate estiverem cozidos, triturar com a varinha mágica.

Adicionar as folhas de beldroega , tapar o tacho e deixar cozer.

À parte, num tacho pequeno com água quase a ferver (85ºC), escalfar os ovos, um a um.  Retirar com cuidado com uma escumadeira. Reservar.

Na momento de servir, colocar a sopa no prato e no centro o ovo escalfado.

Acompanhar com uma fatia de pão rústico (se gostar de molhar o pão no ovo).

Bon appétit!

Piquenique entre estações

O dia amanheceu chuvoso. Olhei para o calendário e questionei se estaríamos a vinte e seis de agosto. Confirmei que sim. Cá dentro a vontade de verão. Lá fora um pré-outono a por em causa o piquenique programado para este domingo. Os chuviscos não demoveram, porém, os piquenicantes. Desliguei o forno. Acondicionei a piza. Preparei a cesta com o silverware de exterior. Retirei as placas térmicas do congelador e coloquei-as dentro da cooler (cula, à boa moda terceirense, e o equivalente a mala térmica). Acomodei a sobremesa dentro de uma tupperware. Abracei as toalhas e as mantas e, num equilíbrio de forças conjunto, colocámos tudo dentro da bagageira do Grand Picasso. Rumámos entre orvalhos até aos Viveiros da Falca.

Fomos os segundos a chegar. O José e o Miguel já lá estavam. Tinham ido mais cedo para reservar a área e começar a fazer as brasas. Depois vinham uns e outros, amigos que já não víamos há alguns dias. Vinte e quatro pessoas ao todo. Uma festa, portanto.
A mesa foi-se compondo com salgados vários e frutos da época: o melão, a melancia, os figos e os maracujás. O Fausto levou um pudim de pão delicioso, feito pelo próprio.
As crianças exploravam curiosas a ribeira, valendo-lhes alguns sustos no musgo deslizante. Corriam atrás da bola. Escondiam-se atrás das árvores, soltando gargalhadas espontâneas que ecoavam e logo desapareciam no ar para ressurgirem mais à frente.
Depois do repasto, as mulheres decidiram fazer caminhadas nos carreiros em terra-batida do parque. O sol desejou testemunhar tudo. Naquele momento era verão outra vez.


 

Piza extra-tomate

Ambas as fotos foram tiradas antes da piza ir para o forno. Não me ocorreu tirar depois:(

Ingredientes para a massa

Massa (massa de pizza do livro base da Bimby):
200 g de água
50 g de azeite
1 colher de chá de sal
400 g de farinhas (200 g de trigo, 100 g de centeio, 100 g de arroz)
1 saqueta de fermento seco, Fermipan

Ingredientes para o recheio

fatias de chourição

molho de tomate e manjericão, já publicado aqui.

pimento vermelho

tomates-uva

cogumelos

queijo mozarela

queijo ilha (São Jorge)

queijo flamengo

azeitonas pretas descaroçadas

oregãos secos

 

No copo da Bimby, coloquei a água, o azeite e o sal e programei 1 minuto, 37 graus, velocidade 2.

Adicionei a farinha, o fermento e programei 2 minutos, velocidade espiga.

Deixei levedar num local morno até dobrar de volume.

Estendi a massa com um rolo até ficar com a forma arredondada. Coloquei-a na forma. Piquei-a com um garfo.

Dispus o molho na base da piza, espalhando-o com uma colher.

De seguida, coloquei os restantes ingredientes e terminei com o queijo.

Levei ao forno, pré-aquecido a 200 ºC, cerca de 20 minutos.

Casa do Sal… o meu obrigado

Sempre me perguntei porque,  aqui nos Açores, nunca foram criadas salinas, uma vez que temos tanto mar à nossa volta.

Uma salina é, basicamente, um conjunto de reservatórios que se destinam a receber água salgada, evaporando-a e retendo o sal que nela vem dissolvido.  Cá nas ilhas temos muitos reservatórios para a água da chuva, desde os tradicionais tanques nas casas, aos dos pastos e às lagoas artificiais que, por sua vez, também servem a lavoura. Então porque não se criam depósitos para a água salgada?  Sem recorrer a nenhuma base ciêntífica, ou investigação, conjeturei  uma possível razão para a inexistência de salinas aqui nas ilhas. Matéria-prima, ou seja, água salgada, não escasseia. Pensei então que como as salinas são construídas em grandes áreas planas, a formação geológica do arquipélago, irregular e acidentada, invalidaria a existência das mesmas.  Não sei se esta interpretação é válida.

O propósito deste post não é, porém, conjeturar sobre o atrás referido mas agradecer à Casa do Sal da Figeira da Foz o envio destas embalagens de sal.

Aproveitei a flor de sal com pólen para imprimir um toque diferente a esta salada.

Salada de tomate e beldroegas com flor de sal

Cortei em gomos dois tomates médios.

Descasquei um pepino pequeno.

Cortei cebola roxa às rodelas.

Salpiquei com folhas de beldroega.

Temperei com azeite, um pouco de vinagre e flor de sal com pólen de abelhas.

Esta é uma salada muito simples, mas tem sido a nossa eleita esta verão.

 

Obrigada, Casa do Sal, pelas embalagens.

Obrigada Andreia pelos tomates.

 

Outro sal, aqui.

Compota de tomate-uva

Surgiram assim. Espontaneamente. Junto a um dos nossos muro de pedra.  Expandiram-se com a ajuda do sol e da chuva. Totalmente autónomos. Agarraram-se a outras plantas, que utilizaram como suporte para os seus cachos, de tomate-uva.


Reservei alguns para salada. Com os restantes, fiz esta compota de tomate-uva.


Lavei os tomates e triturei-os mesmo com casca e sementes, por serem pequenos. Recorri a um coador e, com a ajuda de uma colher de pau, separei as cascas e as sementes da polpa.

Pesei a polpa e e coloquei-a numa panela de boca larga.

Adicionei metade do peso da polpa em açúcar.

Juntei um pau de canela e 2 ou 3 cravinhos.

Mexi e deixei ferver em lume baixo até fazer ponto estrada.

Nota: O doce tem tendência a verter,  para fora do tacho,  na primeira meia-hora,  pelo que deverá manter-se alguma vigilância e ir-se mexendo com uma colher de pau com alguma frequência.

Continuação de um ótimo verão.

Patrícia

Um olhar sobre… a feira do gado

Um campo aberto ao céu na Vinha Brava. Um terreno quase baldio, não fosse pertencer aos Serviços Agrários. Um local que madruga todos os domingos; que assiste, com o nascer do sol como cúmplice, à chegada das primeiras carrinhas com atrelados carregados de animais, de fruta, de legumes, de plantio e de árvores de fruto. Vêm de longe e de perto. Religiosamente todos os domingos. Um ritual apenas interrompido um único domingo por ano: o do Bodo. Um espaço onde as gentes se tratam pelos nomes ou por Ti Manel e Ti Maria, no caso dos forasteiros, clientes de circunstância. Um meeting point para os habitués, onde, de pé junto às cestas e aos carros se discute podas, sulfatos, luas e onde se ouvem clichés sobre política regional e nacional, que nada acrescentam nem resolvem, mas que se soltam ali, da boca de quem trabalha a terra ou trata do gado, em pequenas frases terapêuticas. Corações simples mas grandes. Mãos ásperas, habituadas a esgravatar na terra, à procura de sustento, enchem-nos os sacos, ausentes de publicidade, simples, num tom único, como se o seu conteúdo dispensasse técnicas de marketing.




Um lugar onde um dos poucos latoeiros da ilha e um ferreiro mostram a sua arte.  O primeiro vende todo o tipo de formas de bolos e bolinhos, de latão e alumínio, candeias, bilhas de leite em miniatura para colecionadores e crianças que depois da compra se as passeiam  contentes pela feira. O segundo, homem da bigorna, exibe o produto do seu trabalho de ferreiro e forjador. Dois homens com quem se gosta de conversar e com quem se aprende.

Um cantinho para as doceiras que vendem encantos de açúcar: barquinhas de côco, queijadas de feijão e de amendoim Donas Amélias, donetes, suspiros de limão e doces tradicionais nas épocas festivas.

Um espaço mágico para as crianças da cidade que, na falta de contato com animais do campo veem aqui uma oportunidade de interagirem com estes, desde os maiores: cavalos, burros, vacas, porcos, aos mais pequenos: cabras, coelhos, porquinhos-da-Índia, hamsters, galinhas, galos e pintainhos, patos, patas e patinhos. E é ver os pais babados, de máquina fotográfica na mão (e faço parte deste grupo), a registar momentos de interação dos filhos com os animais, como se de um jardim zoológico oficioso se tratasse, com a particularidade de se poder afagar o pêlo ou a pena, facto proibido em  qualquer jardim zoológico oficial.

Um local onde cada um dispõe e expõe os produtos à sua maneira e segundo a sua sabedoria, muitas vezes inversamente proporcional à escolaridade. Ali está na caixa da carrinha ou em cestos o que se tem, o que se ajuda a crescer nos quintais, hortas, terrenos e pastos e o que se confeciona nas cozinhas.

Este ajuntamento dominical não é porém cartaz turístico sinalizado. Contudo, naquele terreno reside a alma de muita gente, a génese da ilha e uma fração da açorianidade.

De lá trouxemos hoje, e mais uma vez, muitos conselhos, de experiência feitos, para a nossa horta e para as nossas árvores de fruto e estes figos e maracujás que nos proporcionaram uma sobremesa de domingo deveras genuína.

Aliteração em «f» : frescura de flores

Interrompi a pausa para vos trazer esta água fresca.

Fui inspirar-me numa ideia que vi no blogue da Ilídia que, por sua vez, foi beber ao blogue da Gabriela.



Ideias simples mas que acrescentam colorido à mesa.

Continuação de um ótimo verão.
A pausa está a saber-me bem. Apreciei, no entanto, esta interrupção para vos oferecer a frescura das flores.

Patrícia