Convidei para jantar…Gabriel García Márquez

Desta vez tudo estaria pronto para receber o meu convidado. Seria diferente dos outros jantares. Sophie Dalh antecipou-se e decidiu preparar a refeição. Tom Sawyer e Huckleberry Finn desapareceram no bosque e tivemos de jantar mais tarde. David Lynch fez-me perder o apetite com a sua neurótica maneira de ser. Com Gabriel García Márquez teríamos um fim de dia calmo, despreocupado e repleto de experiências de vida.

Chegou à hora combinada com a boa disposição que o carateriza apesar de visivelmente cansado e um pouco debilitado pela idade e pelos revezes de saúde. E a conversa começou mesmo pelo tópico da saúde, ou melhor, da falta dela. Tinha previamente avisado os meus filhos que teriam de se saber comportar durante o jantar porque iríamos ter um convidado especial, com um sotaque diferente porque pertencia a outro país, à Colômbia. Assim que Gabriel García Márquez entrou a pequenita quis logo saber em que ilha ficava o seu país. Esbocei um sorriso e o meu convidado sentiu nesta pergunta o mote para começar a contar histórias de infância (mas sem fadas nem duendes), as quais os meus filhos ouviram com muita atenção, de talheres parados, esquecendo-se que tinham a sopa na frente.

Da cozinha vinha o perfume do assado aromatizado pelo alecrim que interferia constantemente com a fluidez da conversa.

Elogiou-nos o almoço e o vinho açoriano servido, Frei Gigante, branco, colheita de 2007.

Mais tarde, falámos de William Faulkner, quem Gabriel García Márquez reconhece como seu mestre. A conversa deteve-se algum tempo sobre este escritor norte-americano que é conhecido por uma escrita complexa, por uma  maneira de escrever, típica do stream of consciousness inaugurado por Proust e refinado por James Joyce. Gabriel García Márquez, tal como Faulkner, admitiu-me que sempre exigiu do leitor uma profunda cumplicidade e uma aguda capacidade de concentração. Mencionei o que me tinha fascinado na leitura de Cem Anos de Solidão, um dos seus três livros que li, mas verifiquei que a sonolência, própria da idade e do pós-repasto, se tinham apoderado do meu convidado. Pedi às crianças que não fizessem barulho e, quando demos conta,  dormia profunda e serenamente com a cabeça apoiada no encosto da poltrona e as mãos cruzadas no regaço. A minha filha, voluntariosa, foi buscar-lhe uma mantinha, aconchegou-o e disse-nos baixinho: Agora não podemos mesmo fazer barulho.

Saímos da sala.

Polvo à Lagareiro com Alecrim
Ingredientes  
batatinhas novas
sal
4 Kg de polvo congelado
1 cebola
azeite q.b.
12 dentes de alho
alho em pó
pimenta preta
alecrim
piri-piri
folhas de louro
 
Preparação do polvo
Arranjei o polvo, previamente congelado para se tornar mais tenro, lavando-o muito bem em água quente corrente e cortando-o em pedaços de dois tentáculos cada.
Em seguida, coloquei-o numa panela, juntamente com uma cebola descascada inteira, seis dentes de alho inteiros, uma folha de louro e duas malaguetinhas (piri-piri)
Tapei e deixei cozinhar lentamente.
Obs. Enquanto o polvo cozia, arranjei as batatas e coloquei-as a assar no forno.
Depois de cozido, escorri o polvo e deixei-o arrefecer.
Num tacho coloquei  azeite a ferver com outros seis dentes de alho esmagados e alecrim.
Juntei os pedaços de polvo e envolvi-os no azeite de alho.
Coloquei tudo numa assadeira e levei ao forno para alourar.
Preparação das batatas
Lavei as batatas com casca muito bem lavadas. Usei batata nova.
Coloquei-as molhadas no tabuleiro.
Envolvi-as em sal fino, alho em pó, pimenta preta e bocadinhos de folha de louro e alecrim.
Reguei-as com azeite.
Levei-as ao forno a assar.
Quando estavam quase assadas, retirei-as do forno e esmaguei-as ligeiramente com as costas de uma colher de pão.
Virei-as durante a cozedura e acrescentei-lhes mais um pouco de azeite.
Voltei a colocá-las no forno até estarem completamente assadas.
Juntei as batatas assadas na assadeira que continha o polvo e servi.
Acompanhei o peixe com uma salada de folhas com rabanetes e ervas aromáticas.
“A minha recordação mais viva e constante não é das pessoas mas da própria casa de Aracataca onde vivia com os meus avós. É um sonho recorrente que ainda persiste. Mais ainda: todos os dias da minha vida acordo com essa impressão, falsa ou real, de que sonhei que estou nessa casa. Não que tenha voltado a ela, mas que estou ali, sem idade e sem nenhum motivo especial, como se nunca tivesse saído daquela casa velha e enorme. No entanto, mesmo no sonho, persiste o que foi o meu sentimento predominante durante toda aquela época: a angústia nocturna. Era uma sensação irremediável que começava sempre ao entardecer e que me inquietava mesmo durante o sono até que voltava a ver pelas frinchas das portas a luz do novo dia. Não consigo defini-la muito bem, mas parece-me que aquela angústia tinha uma origem concreta, e era de noite que se materializavam todas as fantasias, presságios e evocações da minha avó. Era essa a minha relação com ela: uma espécie de cordão invisível mediante o qual comunicávamos ambos com um universo sobrenatural. De dia, o mundo mágico da minha avó parecia-me fascinante, vivia dentro dele, era o meu mundo próprio. Mas de noite causava-me terror. Ainda hoje, às vezes, quando estou a dormir, só, num hotel de qualquer lugar do mundo, acordo de repente, agitado por esse medo horrível de estar só nas trevas e preciso sempre de uns minutos para racionalizar e voltar a dormir. O meu avô, em contrapartida, era para mim a segurança absoluta dentro do mundo incerto da minha avó. Só com ele desaparecia a angústia e me sentia com os pés na terra e bem instalado na vida real. O estranho, pensando nisso agora, é que eu queria ser como o meu avô – realista, valente, seguro – mas não podia resistir à tentação constante de me aproximar do mundo da minha avó.”
                                                                                                               Gabriel García Márquez in O Aroma da Goiaba
Com esta receita, participo em mais uma edição do passatempo “Convidei para jantar…“, a decorrer, desta vez, no  blogue De cozinha em cozinha passando pela minha. 
Patrícia
 


12 thoughts on “Convidei para jantar…Gabriel García Márquez

  1. Lily

    Gostei muito da tua escolha, gosto muito do Gabriel Garcia Marquez. Um homem cheio de simplicidade nas palavras e que as usa de uma forma brilhante, com as quais me emociono sempre. A refeição é das minhas favoritas, perfeito. Levo o Zafon e jantamos todos, boa? beijinhos

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  2. carla

    Patrícia,
    Gabriel Garcia Márquez foi um dos convidados que ponderei. Fascina-me a sua escrita, a sua imaginação, a descrição que faz das personagens e dos ambientes. Desde que conheci a família Buendía, nessa obra incontornável que é “Cem Anos de Solidão” Garcia Márquez passou a ter um lugar de destaque na minha estante. E sendo o polvo á lagareiro um dos meus pratos preferidos e o alecrim uma das minhas ervas predilectas só posso dizer: convidado e repasto perfeitos. Obrigada Patrícia por esta belíssima participação.
    Beijinhos

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  3. Ondina Maria

    Que belo convidado. Acreditas que quando li os cem anos de solidão fiquei com insónias? deve ter sido por simpatia lol 😀
    Já li vários livros dele e adoro. Espero conseguir recuperar a tempo de receber o meu convidado!

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  4. Ginja

    Patrícia,
    uma belíssima escolha que também poderia ser a minha. Desde que li um dos seus livros, ansiei por mais, que estão bem guardados na minha estante. Gosto da escrita. E gosto do teu polvo bem aromático.
    Um serão bem passado com toda a certeza.
    Um abraço.

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  5. sao33

    ADORO POLVO Á LAGAREIRO E ESSE FICOU PERFEITO.
    HÁ MUITO QUE NÃO PASSAVA POR AQUI, OS BLOG DOS WORDPRESS NÃO APARECEM NO PAINEL DO BLOGER,MAS VOU TRATAR DISSO.
    BOA SEMANA
    BJS

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  6. Mar

    Teria acertado no prato, certamente. Ele teria gostado. Um pretexto com aroma a alecrim para revisitar aquele início labiríntico dos “Cem anos de solidão”. Tive de acompanhar a leitura com um lápis e uma folha de papel, para ajudar a memória a reter todos os nomes. Todas as ligações entre os nomes. Foi há tanto tempo, agora que penso.

    Uma boa semana para si.

    Mar

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  7. Helena Gonçalves

    “É necessário abrir os olhos e perceber que as coisas boas estão dentro de nós, onde os sentimentos não precisam de motivos nem os desejos de razão.
    O importante é aproveitar o momento e aprender sua duração, pois a vida está nos olhos de quem saber ver”

    As palavras são dele, do teu ilustre convidado, sabias e tão verdadeiras.
    Quantas coisas boas saíram de dentro de ti… um texto lindo, um jantar fantástico, um belíssima apresentação.
    Uma ternura tão grande, apenas imaginada, mas que só o pode ser porque saiu de um coração generoso!
    Gostei de tudo e o teu convidado é também um dos autores que aprecio muito, adorei o livro que citas, mas diverti-me dom “Memória da minhas putas tristes”.
    Bjs

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  8. panelasemdepressao

    Olá
    Polvo a lagareiro e dos meus pratos favoritos.
    G Garcia marcou uma época da minha vida. Li tudo o que estava traduzido e antes da biografia ca chegar, li- a em espanhol, oferecida por quem conhecia os meus gostos.
    Confesso que entretanto me “afastei” dos latino americanos, mas os livros do Gabriel serão sempre uma referencia. Boa escolha, boa história.
    ( desculpa as gralhas, nAo me entendo com este teclado)
    Um abraço
    Guida

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  9. Ilídia Bettencourt

    Belíssimas escolhas. Tanto do prato, como do autor. Gosto muito de Garcia marquez. Do último que li (as memórias das minhas putas tristes), nem por isso. Mas Cem anos de solidão e Amor em tempos de cólera, principalmente, marcaram-me bastante.
    Beijos

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