Intemporalidade de um L

Não me lembro da altura exata em que mo apresentaram. Estranho. Recordamos sempre momentos significativos, pessoas que passamos a conhecer, pessoas que ultrapassam a barreira dos conhecidos e se transformam em amigos. Porventura esse momento inicial em que o conheci reside lá trás, na infância, numa altura em que as memórias não se traduzem em memórias arquivadas mas em sensações que residem de forma endógena connosco. Quantas vezes dizemos “tenho a sensação de já ter visto, de já ter estado…” e não conseguimos definir um tempo e um espaço preciso. Sabemos contudo que esses momentos de contato, de cumplicidade existiram porque há a evidência de eles terem existido. Eles estão lá, na estante da casa dos meus pais e pertencem à minha infância e à minha adolescência. As marcas do tempo e do manuseio feito por mãos pequenas ainda estão registadas através da folha que se dobrou para marcar algo, do separador que se deixou esquecido em determinada página, das notas que se escreveram nas margens e das dedicatórias de quem ofereceu. Eles são a coleção da Formiguinha, livros tão pequeninos com os contos de La Fontaine, que ainda guardo. Eles são a coleção da Anita. Eles são as aventuras de Os Cinco e de Os Sete e de As Gémeas de Enid Blyton. Eles estão agora nas minhas estantes e pertencem a Sophie Mello Breyner Andresen, a Agustina Bessa Luís, a Almeida Garrett, a Luís de Camões, a Eça de Queirós, a Camilo Castelo Branco, a Fernando Pessoa, a Cesário Verde, a Raúl Brandão, a Mark Twain, a John Steinbeck, a William Shakespeare, a Charlotte e Emily Brontë, a Herman Melville, a Nathaniel Hawthorne, a Edgar Alan Poe. . . Estes livros e escritores, e muitos outros que reconheço que deveria ter referido- José Luís Peixoto e José Saramago são dois deles- fizeram-me viajar numa máquina do tempo e transportar a realidades e épocas desconhecidas onde residiam códigos e mensagens a serem descodificados. É certo que também sentimos a marca que determinado filme ou desenho animado deixou em nós, mas os livros serão sempre os livros, pertencerão sempre a uma época das nossas vidas e terão sempre um lugar de destaque numa estante como se de troféus se tratassem.

“O livro exibirá sempre a sua lombada, publicidade gratuita a si mesmo, e esta continuará ali a afirmar que ele existe, que se rege por uma marca intemporal e que anseia que o escolham.”
PC

Decidi comemorar o Dia Mundial do Livro assim, de forma singela, com este texto.

Hoje não há receita mas deixo-vos com imagens da minha ilha, retratos do nosso domingo à tarde que conseguem ser tão inspiradores como um bom livro.

PC

10 thoughts on “Intemporalidade de um L

  1. Lily

    Um bonito post. Muitos desses livros também fazem parte das minhas memórias. É bom ler, nada como ter um livro na mão. Em minha opinião nada os substitui. Um livro permite-nos sentir tanta coisa que um post não chegava para falar de livros. O último autor que li foi Carloz Ruíz Zafon e fiquei enamorada 🙂 brilhante, em minha opinião claro está. Boa semana.

    Gostar

    • foodwithameaning

      Interessante como as memórias se constroem através de livros. É certo que viver dá-nos experiências mais reais, mais empíricas, mas um bom livro também consegue isso tudo. Já ouvi falar do livro A Sombra do Vento de Carlos Zafon, mas ainda não lhe coloquei as mãos em cima. Foi esse que leu?
      Um beijinho
      Patrícia

      Gostar

      • Lily

        Precisamente, esse mesmo. Curiosamente a história é sobre um livro, a capacidade de proteger o tesouro que é um livro. Pelo meio uma fantástica descrição de Barcelona e um amor adolescente. Poucos livros me deixaram saudades quando os terminei. Com este não queria chegar à última folha. Aconselho 🙂

        Gostar

      • foodwithameaning

        Obrigada por me responder. Vou colocá-lo na minha lista e vou tentar meter uma cunha para que passe à frente dos outros. Dois livros que me deixaram saudades quando os terminei foram o Ensaio sobre a Cegueira de Saramago e Cemitério de Pianos de José Luís Peixoto. É um sentimento saudosista que nos percorre quando terminamos de ler livros que nos marcam.
        Um beijinho
        Patrícia

        Gostar

  2. Ondina Maria

    Os livros que tanta companhia fazem! Desde miúda que acumulo livros: muitos ficaram em casa dos meus pais, como os da Condessa de Ségur, Os cinco, Uma avetura, Triangulo Jota, Anita, etc. e por aí fora. Muitos outros vieram comigo. E ainda mais fui comprando, para viajar no tempo e no espaço, com histórias verdadeiras ou de ficção, para surpreender alguém com receitas, para me surpreender a mim, já com os olhos semi-cerrados pelo cansaço mas colada numa leitura tão viciante que nem eu sei como ainda consigo resistir…

    Belas paisagens. Trazem paz de espírito, uma sensação de conforto e de que tudo vai correr bem. Porque os lugares bonitos têm a capacidade de nos animar!

    Gostar

    • foodwithameaning

      Cada vez sai mais em conta viajar através dos livros. São verdadeiros companheiros. Estão sempre ali, ao nosso lado. E esta cumplicidade não tem preço.
      Na verdade ontem esteve mais um dia magnífico e eu quis registar esses momentos paisagísticos por trazerem muita paz de espírito, como diz.
      Um abraço

      Gostar

  3. M.

    Patrícia, que post saboroso! Há tempos também respondi a um desafio sobre os livros (http://apanificadoraribeiro.blogspot.pt/2011/06/delicioso-desafio-literario.html). Tantos bons clássicos leste, falharam-me muitos! Em casa dos meus pais, não se podia sequer dobrar os cantos dos livros, o meu pai ficava furioso quando os emprestava e vinham marcados (o meu pai, em novo, foi tipógrafo e respeitava tremendamente os livros!).
    Beijinhos,
    Madalena
    P.S. Que ilha de sonho!

    Gostar

    • foodwithameaning

      Olá Madalena. Seja bem-vinda ao meu blogue.Gostei de saber que se identificou com este meu post. Ando agora a folhear alguns livros que li há muito tempo e só me apetece lê-los de novo. Não sei se lhe acontece o mesmo. Achei interessante a atitude do seu pai. Muito compreensível. Quando era mais nova não resistia a anotar e a sublinhar nos livros. Tendências de estudante, presumo. Hoje, vejo-os como preciosidades, mas quando folheio os livros antigos gosto de ler as anotações que fazia nas margens.
      Apareça por cá mais vezes.
      Um abraço
      Patrícia

      Gostar

  4. Ilídia

    Também adoro pegar nos livros que me marcaram e folheá-los (quem não gosta?). Gosto de ver a minha assinatura (ainda com a letrinha infantil) ou a etiqueta do preço. E sim, também é frequente encontrar marcadores esquecidos ou até passagens de avião. Muitos de Eça têm grãos de areia (passei um verão a devorá-los e levava-os para a praia :). Ao contrário de ti, lembro-me perfeitamente do primeiro livro que li (A fada Oriana, a propósito do qual já escrevi no blogue), mas também não me lembro do primeiro que me leram. Impossível 🙂 E ainda gosto de sublinhar, de anotar. E gosto muito de ler um livro anotado e sublinhado por outra pessoa. Acho curioso comparar aquilo que me marcou com o que marcou os outros. É que, por vezes, não tem mesmo nada a ver. E é aí que está a maior beleza. As diferentes leituras da mesma obra.
    Um beijo,
    Ilídia

    P.S.: As fotografias da nossa terra estão lindas.

    Gostar

    • foodwithameaning

      O meu filho leu A fada Oriana nestas férias da Páscoa e gostou muito, mas preferiu O Planeta Branco de Miguel Sousa Tavares (eu também o li. Fiz a minha interpretação e gostei). É fundamental criarmos hábitos de leitura nos nossos filhos mas reconheço que eles e nós vivemos na era da imagem, do vídeo-jogo e não é muitas vezes fácil escolher o silêncio que o livro proporciona ao som/ruído que nos rodeia.

      Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s