A minha biblioteca de cozinha – Passatempo “Livro das Beiras e Trás-os-Montes – Receitas Bimby”

– Que saudades tenho das alheiras da minha mãe! – dizia o transmontano recém-casado com a açoriana.
– Alheiras? O que é isso? – perguntava a açoriana, desconhecendo por completo ao que o marido se referia.
– São uns enchidos feitos com pão e carne. Há-os de carne de porco, de caça…
– Mas também comia agora uma chouriça com um naco de pão de Gimonde –suspirava o transmontano.
– Chouriço com pão? – Nunca vi tal combinação! Chouriço?! Isso colocamos na feijoada aqui nos Açores. Mas disseste chouriça? Há um enchido parecido com o chouriço mas no feminino?

Diálogos deste género aconteceram ao longo de vários anos. Cada vez que a açoriana visitava os sogros em Trás-os-Montes experimentava pratos que até à data desconhecia por não fazerem parte da cultura gastronómica dos Açores. Experimentou javali com castanhas, chouriços doces, trutas de escabeche, vitela assada no espeto, bola de bacalhau, folares de carne (coisa estranha para ela porque estava habituada aos folares doces com ovos em cima), butelo (quando soube que era a bexiga do porco com ossos arrepiou-se, mas já era tarde) com batatas cozidas e grelos ou com cascas (feijão seco cozido com casca). Participou na apanha da azeitona e na matança do porco. Viu o rio da aldeia gelado e os rapazes a deslizarem alegrias e atrevimentos com bicicletas e motos. Soube o que era o frio e sentiu o conforto do calor da lareira. Participou no trabalho árduo das hortas. Lançou milho às galinhas e aos patos e carregou baldes de água. Ouviu os guizos do rebanho de ovelhas que passava todos os dias por debaixo da janela do seu quarto. Observou a partida silenciosa dos homens para a caça. Viveu por uns dias outra realidade completamente díspar da sua, como se tivesse entrado numa máquina do tempo e regressado ao passado, ao viver e cozinhar com alma. Sentiu a verdadeira hospitalidade nordestina. Hoje em cada prato tipicamente transmontano que confeciona recorda os momentos vividos no regaço das montanhas onde a mesa e o convívio à refeição transpiram tradição.
“Das Beiras a Trás-os-Montes – Receitas Bimby” reflete com certeza o melhor dessa tradição gastronómica nortenha sendo uma fonte de inspiração para quem como eu- a açoriana da estória – pretende ampliar saberes e sabores com a ajuda sempre preciosa da Bimby.

Com este texto e foto participei no passatempo acima referido. Decidi também partilhar estas vivências convosco.

Patrícia

8 thoughts on “A minha biblioteca de cozinha – Passatempo “Livro das Beiras e Trás-os-Montes – Receitas Bimby”

  1. Ondina Maria

    Ai ai, a comida de Trás-os-Montes é qualquer coisa. Ou melhor, tudo é qualquer coisa: os lugares, as pessoas, as paisagens, a comida, enfim, todo o conjunto é divino. Até o frio intenso que por vezes se faz sentir sabe bem e acorda a alma 🙂

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  2. Babette

    Que história engraçada… Mas de facto a nossa cozinha é tão rica e variada, e tão diferente de região para região, que acredito que conversas como esta se sucedessem muitas vezes.
    Babette

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    • foodwithameaning

      Olá Babette. Só cá para nós, que ninguém nos ouve, digo-lhe que esta história é mesmo verídica, por isso escrevê-la foi um deleite apesar de saudosista. Fico feliz por ter gostado dessas minhas vivências transmontanas.
      Uma boa semana!
      Patrícia

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  3. Lylia Diógenes

    Olá Patrícia,
    É muto interessante conhecer esses termos da culinária.Há tanta diversidade! No Brasil nem conhecemos alheira.Pelo que entendi é uma espécie de linguiça, é isso?
    Prazer em conhecer seu blog, gostei muito.
    Bj,
    Lylia

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    • foodwithameaning

      Sim, é um género de enchido mas com recheio de pão e carnes. É muito saboroso. Tem de experimentar. Todos os países possuem imensa diversidade de termos. No nosso, cada região tem características gastronómicas muito diferentes. Só passando pelos sítios e experimentando. Eu como moro numa ilha viajo muita vez através dos pratos que faço, que acabam por me fazer lembrar os lugares por onde passei. Bem vinda ao meu blog. Apareça sempre que desejar.
      Um beijinho
      Patrícia

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  4. Ilídia

    Gosto de enchidos. Demais, até. Por isso, seria um perigo viver em Trás-os-Montes 🙂
    Há uns anos, passei um fim de semana em Vila Real e, para além das paisagens deslumbrantes, das aldeias pitorescas e da terra de Miguel Torga, recordo refeições de alheira e de presunto com queijos, tudo muito bem regado com os belíssimos vinhos do Douro.
    Boa sorte para o passatempo. Se ganhares o livro, tens de me deixar dar uma espreitadela.
    Beijinhos

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